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Mario Vargas Llosa
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Amor por Madrid

Os nascidos em Madri são uma comunidade em declínio que aceita sua condição de minoria

Mario Vargas Llosa, O Estado de S. Paulo

22 de dezembro de 2020 | 03h00

Nunca pensei que leria um guia do início ao fim. Assim como os dicionários, os guias são livros de consulta, são abertos para verificar o significado de uma palavra ou a história de um castelo ou de um museu e são fechados. Mas o volumoso Madrid de Andrés Trapiello, recém-publicado pela editora Destino, tem um incentivo particular que costuma faltar nos guias habituais: a autobiografia do autor, mesclada nas páginas do livro com as informações sobre ruas, monumentos, bairros, personagens, dados históricos e até preferências arquitetônicas. Não acho que exagero se digo que este aspecto, a originalidade do volume, é tão ou mais atrativo que as rigorosas informações que apresenta sobre Madri.

Em 4 de maio de 1971, Trapiello, que é de León e era então um adolescente, brigou com seu pai, com quem nunca se deu bem, e decidiu ir para Madri, onde, nem é preciso dizer, estava a garota que “era o grande amor de sua vida”. Na verdade, essa cidade na qual chegou com pouquíssimas pesetas no bolso – as páginas em que conta como mal ganhava a vida vendendo livros em bares e hotéis elegantes são memoráveis – tomaria o lugar dessa e de outras garotas, os grandes “amores de sua vida”, e temo muito o que aconteceria se houvesse a incompatibilidade da cidade escolhida com a senhora com a qual está casado e com quem, segundo confessa, é muito feliz. 

A história de Madrid e a vida pessoal de Andrés Trapiello são inseparáveis neste livro, que está escrito com humor, muita graça e uma naturalidade sedutora, sem pitadas de vaidade, sem invejas ou rancores, mesmo quando conta algumas crueldades, e uma clareza de espírito e de palavra que é um prazer de ler. As informações sobre Madri são abundantes e divertidas, mas muito pessoais – os escritores ocupam sempre o lugar de honra, o que para mim é uma vantagem – e estão repletas de histórias, de figuras pitorescas que circulam por suas ruas ou sobrevivem em suas tocas e sótãos. 

Têm origem na realidade ou saem de romances, são descritas sempre com o afeto – a paixão – que despertam nele os bairros desta cidade na qual escolheu viver e ser madrilenho, assim como tantos outros que, como ele, têm sido sempre a grande maioria dos habitantes e gonfaloneiros desta terra, esta Madri na qual ter nascido “não dá direito a nada” porque nesta cidade “tudo é de todos”.

É a pura verdade: nós, madrilenhos, procedemos de todos os cantos do mundo. Os autênticos “gatos” (expressão usada para aqueles nascidos em Madri) são uma comunidade em declínio que aceita sua condição de minoria, pois sabe que esta cidade, cuja as origens remotas ninguém conhece, foi, a princípio, um vilarejo livre sem história fundado pelos árabes que se multiplicavam por toda a Espanha naquela época, até que Felipe II teve a ideia de trazer a corte para cá no ano de 1561.

Desde então, a cidade começou a crescer e a se multiplicar de uma maneira que Andrés Trapiello conta de modo incomparável, graças a esse povo do qual se dizia proceder a Fortunata de Benito Pérez Galdós, e que Trapiello, como bom galdosiano, usou como emblema do livro com a famosa citação do romance. E, claro, o Galdós que aparece quase sempre nomeado nas páginas do livro, nasceu nas Ilhas Canárias, e apesar disso foi provavelmente o escritor que mais conheceu e mais amou a Madri, como mostram seus Episodios, romances, dramas e artigos nos quais contou a história do século 19 e a realidade contemporânea desta cidade, que chegou a percorrer de cabo a rabo.

Sem dúvida, o que Trapiello mais gosta são as afueras, a periferia mutável desta terra, na qual passou muitas horas passeando, confundindo-se com sua paisagem, que descreve com delicadeza, e na qual aprendeu a sutil arte da tipografia e, principalmente, a escrever.

Não conheço ninguém que, ao longo de quarenta anos, tenha ido todos os domingos ao Rastro como Andrés Trapiello, mesmo quando esse gigantesco mercado estava fechado por causa do novo coronavírus. Ele escreveu um lindo ensaio sobre esse lugar, o mais pitoresco de Madri, e neste guia o lugar ocupa, nem é preciso dizer, muitas páginas, mas o leitor se beneficia com isso, pois ninguém conhece mais que Trapiello os comerciantes, os mendigos e frequentadores habituais, ou aos turistas que perambulam por suas bancas e lojas, e encontram nelas, entre escombros e lixo, tantos tesouros secretos, quanto ele mesmo.

Trapiello diz que prefere a Madri romântica a todas as demais e, em seu entusiasmo, afirma que Pérez Galdós encarna melhor que qualquer um esse período da cidade, algo que, pelas razões convincentes apresentadas, devemos aceitar, embora a contragosto. Mas não compartilho seu entusiasmo por alguns autores, como Juan Ramón Jiménez, alguém que nunca consegui entender a fama que goza, pois me parece muito superior a seu aferido talento.

Foi a única divergência que tive com meu magnífico professor, Carlos Bousoño, quando cursava as disciplinas do doutorado na Complutense. Naquela época, ele revisava sua Teoria da Expressão Poética e nos dava um curso de autocrítica admirável, repleto de alunos, onde nos ensinava os segredos profundos da poesia, que sabia de cor. Mas admirava a Juan Ramón Jiménez, a quem nunca consegui ler com entusiasmo (talvez seja um defeito meu, não dele).

Trapiello também o admira e cita alguns bons textos dele sobre Madri, do tempo que viveu aqui. Mas suas admirações são incontáveis e bastante fundamentadas, sobretudo entre os que escreveram e contribuíram com seus livros para os mitos de Madri: Baroja, Larra, Mesonero Romanos, Gómes de la Serna, Clara Campoamor, Pérez Tabernero, Umbral e inúmeros outros. Assim como os pintores Goya, Velázquez e Sorolla, ou críticos como Juan Antonio Gaya, pelo qual tem preferência e do qual cita frases e opiniões excelentes.

Talvez a história mais bonita que conta nestas páginas em que há tantas histórias e relatos felizes seja sua descoberta de um museu romântico, quase sempre solitário, no qual se alojou por várias temporadas. Ele o descobriu durante suas contínuas caminhadas por essa Madri que já faz parte de seu ser.

O local estava quase sempre vazio, com alguns funcionários dos quais se tornou amigo, e seus aposentos bagunçados, às vezes com teias de aranha, e suas estantes que ninguém explorava o seduziram, de modo que, após conversar com a diretora do lugar, fincou raízes e passou muitas tardes e manhãs, durante meses, escrevendo seus poemas, ensaios e romances. São páginas carinhosas e nostálgicas, que descrevem esta afinidade do jovem escritor solitário com esse museu talvez ainda mais solitário do que ele, e o qual me propus a conhecer assim que termine esta maldita pandemia que nos mantêm confinados ou vai matando aos poucos os habitantes madrilenhos e que já dura demais.

Raramente recomendo livros a meus supostos leitores, mas, neste caso, vou abrir uma exceção. Leiam-no antes que vocês se transformem naquela “poeira das estrelas”, como um político peruano descreveu a morte, ou tenham que ir procurá-lo entre os cadáveres das livrarias de segunda ou terceira mão do antigo Rastro. É um livro cativante, que retrata a todos os madrilenhos, tanto os genuínos como os postiços. Garanto-lhes que não o esquecerão. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

É AUTOR PERUANO, AUTOR DE ‘CONVERSAS NO CATEDRAL’, ENTRE OUTROS

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