Aline Arruda/Divulgação
Aline Arruda/Divulgação

Amor? Ou atração fatal?

Filme de João Jardim fala de relações reais marcadas pela violência física

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2010 | 00h00

Paixão de trapo e farrapo, que funciona aos tapas e beijos? É mais ou menos o mote central de Amor?, de João Jardim, mix de ficção e documentário muito aplaudido pelo público do Cine Brasília. João parte de uma pesquisa com pessoas que viveram relacionamentos marcados pela violência física e, a partir desses casos reais, faz atores e atrizes interpretarem as histórias. O modus operandi dialoga com o já clássico documentário de Eduardo Coutinho, Jogo de Cena, no qual atrizes interpretam relatos reais. "Com a diferença de que o filme do Coutinho joga com a ambiguidade entre realidade e encenação, ao passo que no meu é dito que tudo é encenação, logo de início", diz o diretor.

Amor? (assim mesmo, com ponto de interrogação) tem momentos fortes, em especial graças à atuação de intérpretes como Angelo Antonio, Júlia Lemmertz, Silvia Lourenço e outros, que emprestam credibilidade e dramaticidade às falas. Com pouca variação, a situação visual buscada é monocórdia: o ator ou atriz visto de frente, às vezes de perfil, dando seu depoimento. É um filme da fala. E do rosto do ator como tela das emoções. E no que consistem esses depoimentos? Em histórias nas quais as notas do amor e do desejo se entrelaçam com as da violência física.

Falas. Impossível não se identificar ou não se sentir tocado com algumas dessas falas. Falta a outras, no entanto, transcendência para que as sintamos como nossas. São algumas histórias mais fortes do que outras? Em certo sentido, sim. Mas o que decide, no fim, é a maneira como são revividas pela intermediação de um ator. Ou seja, é o ator (ou a atriz) que detém a chave da coisa. Isso para falar de cada "episódio", de maneira isolada. Em seu conjunto, o filme fala da humana possibilidade de que o amor flerte com a morte, que Eros peça Tânatos em namoro, como o velho Freud havia descrito tantos anos atrás. Um filme de bom nível, embora talvez se pudesse pedir um aprofundamento maior das histórias.

Ao todo, são oito relatos, sete heterossexuais, apenas um relembrando a turbulenta relação entre duas mulheres. Esse caso de amor lésbico, com todas as suas complicações, paixões e preconceitos envolvidos, é um dos que atingem maior grau de densidade emocional em todo o conjunto de histórias. Silvia Lourenço e Fabíula Nascimento interpretam o casal, mas nunca interagindo. Cada uma delas conta, em separado, sua versão da história. Às vezes uma atriz faz uma ou outra das personagens, o que cria uma ambivalência interessante.

Em todo caso, Amor? foi bem aplaudido no final, palmas que continuaram durante os créditos, quando são apresentados os intérpretes, muitos deles rostos conhecidos da televisão como Du Moscovis, Lilia Cabral e Mariana Lima. Afinal, num festival de iniciantes, foi a única oportunidade de os frequentadores do Cine Brasília aplaudirem rostos conhecidos. Algum desses intérpretes estará entre os premiados com o Candango de melhor ator ou atriz? É possível e até provável, mesmo porque o melhor do filme de João Jardim é mesmo o elenco, seja ele Global ou não.

Os curtas da noite também foram bons, em especial A Mula Teimosa e o Controle Remoto, de Hélio Vilela Nunes (SP), história infantil deliciosa sobre a convivência de dois meninos, um da cidade outro do campo. Um tem problemas com a mula que empaca, o outro, o filho do patrão, traz como brinquedo uma maravilha tecnológica, um aviãozinho acionado por controle remoto. O encanto está na maneira como as duas realidades distintas dos garotos se encontram e dialogam.

Café Aurora, de Pablo Polo (PE), investe num visual sofisticado para dar conta de um entrecruzamento de experiências. Um garçom se encanta pelo mundo das esculturas, enquanto a artista plástica saboreia mais do que o ótimo café feito por ele. Refinado.

Premiáveis. Os nomes dos contemplados saberemos hoje à noite quando forem distribuídos os Candangos, os troféus do Festival de Brasília, depois da exibição hors concours de Os Deuses e os Mortos, de Ruy Guerra, em cópia restaurada. Quem vence? Difícil dizer, mesmo porque, até o fechamento desta edição, ainda não havia sido exibido o último lote de concorrentes - o longa Vigias, de Marcelo Loredello (PE), e os curtas O Céu no Andar de Baixo, de Leonardo Cata Preta (MG), e Custo Zero, de Leonardo Pirovano (RJ).

Feita essa ressalva, com o que foi apresentado até agora, os principais prêmios, entre os longas, podem se dividir entre Transeunte, de Eryk Rocha, e O Céu sobre os Ombros, de Sérgio Borges. Este último é um bom palpite para vencedor do festival. Agradou muito a uma parcela do júri. Outro palpite, este para ator: além dos intérpretes de Amor?, Fernando Bezerra, que interpreta o aposentado em Transeunte, é favoritíssimo.

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