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Amor numa hora dessas

Amar é confundir-se. É o par amoroso que aparece como o lugar onde acontecem desconcertantes descobertas individuais

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2020 | 03h00

Em meio ao caos brasileiro das vacinas – somos um povo que não gosta de cura e adora a doença – e estimulado pelo bolsonarismo fanático, recebi essa mensagem de minha neta Maria Vitória: 

Querido vovô,

Esses dias me fiz uma pergunta muito simples mas que foi difícil de ser respondida. Pensei, por isso, em mandá-la pra ti.

Pra você, o que é o amor?

Beijinhos,

Tóia

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Eis uma interrogação que só fazemos aos companheiros, a alguns tios e aos avós. Ao recebê-la, fico diante desse tão perguntado e necessário amor; ao mesmo tempo que me sinto abençoado pela vida. 

Um trecho do livro de Thornton Wilder, A Ponte de São Luís Rey, inaugura minha acanhada resposta:

“Em breve, porém, morreremos todos e toda recordação terá deixado o mundo e nós seremos um pouco amados e depois esquecidos.

Mas o amor terá bastado – pois todos esses impulsos do amor voltam ao amor que os criou. 

Nem a lembrança é necessária ao amor.    

Há uma terra dos vivos e uma terra dos mortos e a ponte entre elas é o amor: o único sobrevivente, o único significado.”

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Diante destas extraordinárias linhas, dou-me conta do meu tamanho. Mas, como tenho obrigações de ofício como antropólogo, li que o amor tem muitas dimensões. No trecho acima, ele surge confundido a uma singular e humana consciência. O amor, diz Wilder, tudo abrange, inclusive o sofrimento e a morte. Este é o amor que nada pede e que aparece naquele gostar brasileiro das nossas moradas e ao qual estamos predestinados... 

Pois gostamos de muita gente, mas não de todo mundo. E por isso, há amor ideológico, teológico e formal – frio como gelo – destinado a entidades abrangentes como o povo, a pátria e os pobres. Esse é o amor populista, insincero e correto. Fácil de falar e difícil de praticar. 

Ele contrasta com o amor que nos torna humanos porque há um amor que vira saudade e um amor que é o outro lado da aversão e do ódio.

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Sem amor não há Humanidade. Onde habita a capacidade de se colocar no lugar do outro, há o amor como uma conjunção esperançosa entre o eu o e o outro; entre o episódico e o eterno. Como ensina o escritor, o amor é a ponte. 

Mas há, reitero, um amor excludente. É lamentável que essas manifestações existam lado a lado e nos obriguem a constantemente inventar um meio do caminho, embora estejamos certos de que estamos simultaneamente no início e no fim de uma grave jornada.

Descobrir o amor sofreado em cada um de nós é muito mais difícil do que entender as nossas aversões. Sabemos mais do que não gostamos do que gostamos porque somos atraídos por alguma coisa ou pessoa. Entre atração e a traição há apenas uma vogal. Viver implica no esforço de conjugar madrugadas com a escuridão da noite. Como alguns incomodamente perceberam, a alternância é o sal da vida. 

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Curioso que, como estudante de sociologia compactada, eu tenha pouco inquirido sobre o amor quando tentei compreender a família, o casamento e a organização social. Uma área muito investigada pela minha geração. Falamos pouco dos motivos e impulsos que deram o âmago dessa temática – o que revela o nosso formalismo. Era como se uma palavra sobre desejos estivesse fora do parentesco quando sabemos que filiação e afinidade só existem porque há “amor” ou quando ocorre algum tipo dessa coisa patética e engraçada que chamamos amor, como diz a antiga canção de Cole Porter. 

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Para os nascidos em 1936, amor não combinava com a casa, mas com a rua. Falávamos mais de “gostar” do que do “love” das músicas e filmes americanos tão importantes na nossa educação sentimental. Acho que o amar dirigido a uma namorada seria muito sagrado ou profundo, teria o sabor de uma eternidade. Daí, certamente, o cuidado e a suavidade temerosa com os quais tratávamos o verbo amar. 

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Amar é confundir-se. É o par amoroso que aparece como o lugar onde acontecem desconcertantes descobertas individuais. Muito nos assusta a consciência das misturas entre paixão e amor. Amor pode ser fogo que, como viu Camões, arde, mas se deseja; mas, no seu outro polo, é oceânico. Ele é paradoxal e freudiano quando fala em dar a outra face para a segunda bofetada, senão da amada ou do traidor, mas com certeza da vida inocentemente vivida que vai acabar com o soco imoral (mas preciso e insondável) da morte, 

PS: Pulei os poetas embora tenha revisitado Camões e Pessoa (com ajuda de José Paulo Cavalcanti). Não esqueci Bandeira, Drummond nem meu querido amigo Affonso Romano de Sant’Anna. Mas a poesia do amor é um grande oceano e eu sou um velho nadador.

É HISTORIADOR E ANTROPÓLOGO SOCIAL, AUTOR DE ‘FILA E DEMOCRACIA’

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