Leopoldina amava Pedro, que amava Domitila, que amava ser sua "favorita". O triângulo mais conhecido da história dos afetos brasileiros se revela ainda mais humano nas recentes descobertas de Mary Del Priore. Autora de mais de 30 livros de história e apaixonada pela intimidade dos personagens que nos são apresentados nos livros didáticos, a historiadora está lançando A Carne e o Sangue (Rocco, 272 págs., R$ 34,50).

Entrevista com

15 de abril de 2012 | 03h08

Nos arquivos do Museu Imperial, em Petrópolis, ela encontrou cartas até então inéditas que revelam a miséria da piedosa imperatriz, pudica, gorda e humilhada publicamente por conta da infidelidade escandalosa do marido; a volúpia do garboso Demonão, que hoje seria tachado de viciado em sexo; o desejo de poder da graciosa e despudorada Titília, a mulher mais influente do império enquanto durou o romance, entre 1822 e 1829.

Na corte se dizia que só havia dois tipos de pessoas no Rio de Janeiro: os que agradavam a Domitila e os que a desagradavam. Ela vendia favores com anuência do imperador, teve seus filhos bastardos reconhecidos, conseguiu títulos de nobreza e dinheiro para a família, desfilava de nariz em pé pelos teatros, igrejas e festas com as joias e roupas presenteadas pelo amante.

O homem mais forte do reino, proclamador da Independência, chorava de saudades quando não podia vê-la. Criava versinhos infantis, enviava bilhetes acompanhados de chumaços de pelos púbicos ou do bigode, por vezes lhe escrevia duas vezes ao dia. Fez Titília sua vizinha, e mandou abrir uma portinha no palácio para encontrá-la facilmente.

Obrigou Leopoldina, supercatólica, a conviver com os ilegítimos, pôs os príncipes para brincar com eles. Logo ela que já sofria com a diferença de clima e sobriedade entre a corte austríaca e a improvisada da capital tropical do Império português.

A correspondência desvelada pela autora, afeita a fontes primárias - entre a imperatriz e a família austríaca, entre os amantes e entre diplomatas estrangeiros e seus países - estava intacta havia cerca de 180 anos. Mostra como a conduta imprópria do monarca, que teve tantas amantes que ultrapassou, segundo os registros o Arquivo Nacional, a marca de 40 filhos, acabou por torná-lo presença indesejável no Brasil.

"Que podeis esperar de um perjuro, lacaio de estrebaria, borracho cachaceiro, sem educação e sem princípios, sem honra e sem fé?", escreveu um opositor. "O monarca inviolável e sagrado pode bem ser um miserável cheio de vícios, (...) um devasso e adúltero", publicou o jornal baiano O Guaicuru.

O Português Brasileiro manchetou: "Para salvar o Brasil da ruína que vejo principiada". O articulista falava da "mais cega paixão amorosa de Vossa Majestade Imperial com a Visondessa de Santos, mulher indigna de tal sorte por sua má conduta".

Os estrangeiros se chocavam. "É puro Luís XIV", apontou um observador de fora, comparando d. Pedro ao imperador francês que um século antes também escancarara seus affairs. "A imperatriz tem dissimulado a dita conexão entre seu augusto esposo e a mencionada senhora, tratando-a com amizade em público", concluía o cônsul espanhol.

O apetite sexual de d. Pedro - que não se contentava com a vida dupla, e ainda procurava e fazia filhos com outras amantes -, aliado ao mau desempenho do Exército Brasileiro na Guerra da Cisplatina, com a consequente perda do território do Uruguai, e a pressão das revoltas liberais, o afasta do cargo.

"O prestígio político de d. Pedro fica tão baixo que ele passa a ser mais julgado pela sua vida privada do que sua vida pública", avalia Mary Del Priore, que já se debruça sobre os próximos perfilados: a princesa Isabel, neta mais famosa de d. Pedro I, e seu marido, o conde D'Eu. "A análise da correspondência traz essa gente para perto da gente. Eles pulam para a contemporaneidade. Estão falando de coisas que nos interessam: amor, paixão, sexo, solidão, abandono."

Como o adultério impactou a imagem pública de d. Pedro?

D. Pedro é julgado pelo povo do Rio de Janeiro, que é um quarto personagem do livro: as criaturas anônimas das ruas, que vão enxovalhá-lo, fazer sátiras, mostrá-lo montado pela amante. O número de caricaturas, folhetos, as tentativas de matar Domitila quando Leopoldina morre mostram isso.

Esse descontentamento

popular teve influência em sua decisão pela abdicação em

favor de d. Pedro II?

Junto com o mau desempenho na Guerra Cisplatina, com a dissolução da Constituinte e com a situação de Portugal, isso acaba por colaborar para expulsá-lo do Brasil. Os povo começa a entender que aquela criatura não podia representá-lo, uma pessoa com tal fraqueza de espírito.

A imagem dele que ficou para a história foi prejudicada por seu mau comportamento conjugal?

Essas figuras históricas dependem muito das releituras que os historiadores fazem dos documentos por elas deixados. Durante muito tempo, D. Pedro I foi representado como um rei pândego, sem limites. Depois que acabei esse livro, confesso que também fiquei desanimada com ele.

Muito já se falou sobre o

romance de d. Pedro e a

Marquesa de Santos. Quanto à imperatriz Leopoldina, que

descobertas você fez?

Eu encontrei uma Leopoldina bem diferente daquela que a historiografia consagrou, a grande companheira de d. Pedro I na jornada da independência. Era uma mulher que tinha um compromisso muito forte com o que o pai dela (Francisco I) representava: o antigo regime, contra as revoluções liberais. Ela tergiversa entre apoiar um projeto que poderia garantir a coroa e o trono dos filhos e os princípios de absolutismo total.

Você descreve a terrível

melancolia que acometia a

imperatriz austríaca no Brasil. Foi uma surpresa?

Nunca essa voz de dor havia sido ouvida. É a voz de uma das figuras mais importantes do Império brasileiro, e que relata um abandono e uma miséria como raramente vi num personagem histórico. Ela não consegue construir relações com o Brasil.

E Domitila era o oposto disso.

Era uma mulher que conseguia incorporar o papel de submissa, daquela que borda lenços, e, ao mesmo tempo, ser voluptuosa. Os jogos eróticos entre eles são muito importantes. D, Pedro I se derrama. Domitila vem de São Paulo, onde a maioria das casas é chefiada por mulheres. No Rio de Janeiro, usufruía do poder. As cortes europeias todas tiveram essas figuras que acabavam por ter influência junto aos monarcas.

A morte de Leopoldina e a

procura pela nova imperatriz

esfria o relacionamento dos amantes. Por que o sangue,

as obrigações do posto, se

sobrepõe aos prazeres sexuais apenas neste momento?

Na sua condição de monarca, ele teria que privilegiar o sangue de qualquer maneira. Ele tinha que se casar com nobres de sangue, e não com nobres de cama. Por Domitila, ficou cego de paixão. Achou que, tal como os grandes reis franceses, poderia expor sua vida sexual, e que isso seria sinônimo de virilidade. Mas as revoluções liberais já varriam a Europa, e isso passou a ser visto como fraqueza. Ele teve uma inabilidade política muito grande, não se deu conta do descompasso. Estava atrasado. / R.P.

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