Amor e amizade, em uma evocação aos anos de chumbo

Crítica

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2010 | 00h00

Madalena Salles era flautista da Orquestra Filarmônica de Brasília quando conheceu Oswaldo Montenegro. Ambos tinham 17 anos e começaram a namorar. Madalena inspirou a personagem de Paloma Duarte em Léo e Bia. É significativo que o diretor estreante tenha buscado um amor recente (Paloma), para reconstituir um antigo (Madalena). Nos dois casos, a relação acabou, mas não o afeto, que permaneceu sob a forma de amizade.

Léo e Bia é, até certo ponto, uma raridade no cinema brasileiro. É curioso que chegue aos cinemas um dia após - ontem - Nosso Lar haver ultrapassado a marca de 2 milhões de espectadores. Nada mais diferente do que esses dois filmes, mas algo eles têm em comum. Com exceção do artigo terceiro, Nosso Lar prescindiu das leis de patrocínio baseadas na renúncia fiscal e foi bancado por investidores - o filme mais caro do cinema brasileiro. Léo e Bia é miúra em relação a Nosso Lar e, muito provavelmente, fará uma fração do seu público fantástico. Mas, além de ser mais ousado e criativo, como proposta de cinema, não teve patrocínio. Foi bancado pelo diretor/autor, e isso é suficientemente raro para merecer destaque.

É verdade que o espectador médio não encara um filme pela questão do patrocínio. O que interessa é o filme, em si. Baseado num certo número de informações sobre Oswaldo Montenegro, o cantor e compositor - menestrel, romântico -, ele talvez se aproxime de Léo e Bia esperando ver uma coisa. Vai ver outra, com toda certeza.

Mesmo entre os outros filmes que tentaram falar da repressão do regime militar - e da juventude nos anos de chumbo -, não há um que se assemelhe a este. E mesmo que houvesse, pela história - sete amigos desenvolvem um projeto para viver de arte e resolvem montar um espetáculo; os ensaios se confundem com as tramas pessoais que vão rolando, especialmente a da garota que tem a mãe repressora -, a forma de narrar faz a diferença.

Na entrevista, o diretor conta como, cinéfilo, sempre quis fazer um filme. Seu modelo, conceitual e irrealista, foi o Lars Von Trier de Dogville. E ele queria incorporar a música, sua ferramenta até aqui, ao cinema. Queria atores representando de forma realista num cenário que não o fosse. Léo e Bia mistura tudo - teatro, cinema, música. É um filme movido por um duplo movimento. O de experimentar e, ao mesmo tempo, é um ato de amor, de um artista sensível que usa paixão para falar de amizade.

Tem gente que acha Oswaldo Montenegro "chato". Ele sabe. Mas existem também críticos, literatos e artistas (Moacyr Scliar, Roberto Menescal, Maria Gadú, etc.) que reconhecem o criador ousado. Léo e Bia foge ao comum. Merece ser olhado e descoberto com carinho. Paloma e Françoise Forton, como a mãe dominadora, merecem 10 como nota.

LÉO E BIA

Brasil/2010, 95 min. Drama. Direção de Oswaldo Montenegro. 14 anos.

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