Amor é...

Livro ‘O Macaco Nu’ best-seller dos anos 1960, no début da revolução sexual, continua atual

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S. Paulo

07 Abril 2018 | 02h00

Soube que o livro O Macaco Nu (Desmond Morris), citado já aqui, apesar de ser um tratado de sociobiologia baseado na Evolução, é lido na História da USP. É lido e debatido na “Fefeleche”, os departamentos da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH).

O best-seller de sua época, os anos 1960, no début da Revolução Sexual, ele continua atual e a despertar interesse. Em que li que nossa relação sexual é única entre mamíferos: é geralmente em etapas e cara a cara, que os americanos chamam de “missionary position”, que os brasileiros chamam de “papai-mamãe”, mas que deveríamos atualizar, pois duvido que um papai e uma mamãe dos tempos atuais se amem numa posição missionária. 

Talvez devêssemos chamar de “vovozinho-vovozinha”. O que também não é preciso. Depende da geração do vovô e da vovó, se dormiam em sleeping bag quando o sonho acabou ou não. 

Jane Birkin, da “escandalosa” no seu tempo Je t’aime... moi non plus (Serge Gainsbourg), é vovó. Rita Lee, também. Chico Buarque e Marieta têm sete netos. Marieta não tem cara de missionária.

Posição “bisavô-bisavó”? Gilberto Gil, que cantou O Sonho Acabou, em que foi pesado o sono de quem não sonhou, é um vovô hoje com dez netos. E bisavô de Sol de Maria, filha do meu amigo Francisco, filho da Preta, outra vovó nada missionária, e do meu brodinho Otávio Müller; esse, sim, tem cara de padre. 

Mudemos então a expressão para face a face. Tal posição é incomum entre mamíferos porque sexo humano requer reconhecimento. Reconhecimento é admiração. Admiração é paixão, tesão. Paixão com tesão = amor. 

O namoro ocorre por trocas de carinhos e sons afetuosos, pensamentos organizados, elogios para aumentar a autoestima do parceiro. Sentimentos culturais como paixão e amor foram decisivos para o sucesso da espécie. 

O casal não prepara um ninho para o acasalamento. Pode ser no chão, na mesa, em pé, numa cadeira, no sofá, na pia, numa cama, em áreas externas, no banheiro apertado de um avião (fantasia recorrente em todas as etnias), ou alternadamente em todos os locais.

Bebidas com graduações distintas de glicose e carbonos saturados, produzidas de matérias-primas de origem vegetal com alto teor de frutose, como as uvas, ou à base de malte, cevada, milho, cana de açúcar, ajudam se consumidas moderadamente.

A corte começa com sopros, suspiros, cócegas, contato de pele a pele, avanços milimétricos, calculados, aparentemente receosos. Línguas e lábios entram em ação. Esfregam-se na pele do parceiro. Lambem boca, rosto, pescoço, orelha, peito, dedos, barriga, membro do outro. Mordiscam boca, nuca, pescoço, orelha, peito, dedos, membro do outro. Chupam boca, pescoço, orelha, peito, dedos, membro do outro. 

Gastam um bom tempo explorando, manipulando, lambendo e sugando o membro do outro. Manipulam ritmicamente com cuidado, depois com pressa, depois com uma dose certa e bem calculada de brutalidade. Até vir o coito. 

O quadril da fêmea e o do macho ganham um ritmo avassalador a cada minuto, como se machucassem um ao outro. Eles gemem, não de dor, mas de prazer. Um desavisado diria que um humano tenta ferir outro com uma cavidade ou lança pessoal, orgânica, e não pontiaguda como dentes ou chifres, seu membro, e que o outro, apesar das súplicas, defende-se arranhando as costas do parceiro, mordendo seu pescoço, sussurrando, por vezes gritando. 

Então, a fêmea domina o macho e o agride, gira para ficar por cima dele, engolindo seu chifre central não pontiagudo e apoiando as mãos em seu pescoço, tentando esganá-lo. Reviram os olhos. O coração de ambos acelera. Suam. Suam demais.

Normalmente, se as preliminares forem eficientes, a fêmea abre as pernas para o macho se encaixar entre elas e introduzir com facilidade sua mangueira de expelir DNA. Os abraços são fortes. A língua de um esfrega com força a mucosa da boca, parte sensível do outro. Estão absortos, completamente concentrados no ato de desejo, reflexo do amor.

Uma catarse no encerramento, barulhenta, vibrante, como um transe primitivo, sugere que a gosma que frutificará em vida foi ao alcance do óvulo exigente, 85 mil vezes maior do que um esperma, que aceitará apenas um gameta, um DNA envolto por uma cabeça, empurrado por um rabinho que será barrado e desprezado na grande e animada farra da fertilização, o melhor da festa.

O êxtase do homem quase sempre vem antes. Esta magia é peculiar. A fêmea o obriga a continuar. Fêmea não totalmente satisfeita quer mais gametas?

Nada disso. A evolução é mais sofisticada, perfeccionista. Inventou paixão e amor. Inventou casais, para que machos ou fêmeas menos fortes, mas que dominam ferramentas como ossos, machados, tacapes, facas, espadas, lanças, armas de fogo, tacos de beisebol, não ameaçassem os mais fortes e tivessem também chances de ter um parceiro para sempre, e vice-versa.

Paixão que faz o sexo um elemento além da procriação, mas da pacificação do grupo social. O amor faz humanos se ligarem e socializarem, substituírem papai e mamãe, com quem convivem tantos anos, numa das mais longas infâncias da natureza, por outro capaz de dar a mesma proteção, calor, troca.

A proteção vem com uma sobremesa espantosa, o prazer sexual. O coito. A face que seduz, num dos rostos com mais músculos e, por isso, mais capazes do maior número de expressões da natureza, vem com o orgasmo, que deixa dois seres num divino transe, muito além das explicações racionais, anatômicas, vasculares, químicas. É o amor...

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