Eduardo Brandão/Divulgação
Eduardo Brandão/Divulgação

Amor, doença, morte: a vida na obra de Leonilson

Retrospectiva com cerca de 300 obras, algumas inéditas no País, propõe uma análise da rica trajetória do artista

Olívio Tavares de Araújo, O Estado de S.Paulo

28 Abril 2011 | 00h00

ESPECIAL PARA O ESTADO

Desde que ele morreu prematuramente, aos 36 anos, em 1993, dois terços ou mais das vivências diante de uma retrospectiva de Leonilson tornaram-se comuns a todo mundo. Primeiro, a infalível beleza e a consciência de que se trata de um grande artista. E, logo, a revelação da força jovem, loquaz, do começo, versus o despojamento, o intimismo, o incrível poder de comover, depois que o autor, em 1990, se descobre soropositivo. Tudo isso aparece na atual exposição em São Paulo, cujo título, Sob o Peso dos Meus Amores, vem de um pequeno desenho desse ano. A exposição propriamente dita tem defeitos, como a inexplicável montagem sobre paredes de compensado nu que deixam à mostra as divisões entre as chapas - os quadros se atravessando por cima de tal ruído. Simples paredes brancas teriam feito melhor o serviço.

Haverá, também, conflitos de leitura. Talvez seja concessão à moda afirmar, num dos painéis, que Leonilson praticou uma "arte do incômodo". Logo ele, cuja circunspecção, senão timidez, detestaria incomodar quem quer que fosse. É fato que a produção após 1990 trata de temas incômodos, como dor, solidão, doença e morte, mas mesmo - ou sobretudo - então se distingue pela sobriedade e limpidez (sendo este um dos segredos de seu enorme sucesso). Comove, faz pensar, perturba, até; o que não equivale a incomodar. Também não sei o que se quer dizer, exatamente, com "colocar em risco nossas emoções". Ativá-las com rara eficácia é por certo o contrário de colocá-las em risco; é a própria função das emoções. De resto, tem-se uma clara visão diacrônica que dá conta das diferentes fases, técnicas, facetas, mudanças de tema e linguagem - e do forte componente autobiográfico. Em Leonilson a questão se apresenta de maneira exemplar e limite. Vale a pena reexaminá-la.

Em que medida a vida de um autor motiva e faz parte da obra? Ao longo dos séculos, nenhuma resposta surgiu definitiva. Para os clássicos, se a arte imita a vida, isso não significa nem de longe dar vazão a experiências pessoais; trata-se da representação do objeto. Ainda assim, a mimese grega já é uma imitação corretora, destilada pelo conhecimento e fazer racionais: homo additus naturae. Oscar Wilde inverteu o vetor e declarou que a vida imita a arte, com muito mais pertinência do que supõem os que só lhe conhecem a frase solta; é preciso ir lê-la no contexto (The Decay of Lying, 1889). Enfim, em seu quase batido poema Fernando Pessoa assegura: "O poeta é um fingidor. / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente". Arte e vida seriam, pois, estanques entre si. O próprio Pessoa ilustra com perfeição essa tese nos tocantes poemas em que lembra o rio, os rebanhos, o sino de sua aldeia: "Ó sino da minha aldeia, / Dolente na tarde calma, / Cada tua badalada / Soa dentro da minha alma. (...) A cada pancada tua, / Vibrante no céu aberto, / Sinto mais longe o passado, / Sinto a saudade mais perto". Ora! Pessoa nasceu em Lisboa, nunca viveu no campo, e em carta a João Gaspar Simões esclarece que seu sino era o da Igreja dos Mártires, no Chiado, e sua aldeia, o Largo do Teatro de São Carlos.

Simetricamente, é verdade que em abril de 1327 o jovem Petrarca conheceu a jovem Laura na missa matinal; sem ela, teriam sido outras sua poesia e toda a literatura do Ocidente. Já está demonstrado que a noche oscura del alma, a noite passiva do espírito de São João da Cruz, é a perfeita descrição de uma depressão endógena, doença claramente sofrida por vários místicos ilustres, da Idade Média até Simone Weil. A incipiente medicação psiquiátrica dada pelo dr. Gachet a seu paciente Vincent van Gogh tinha, como efeito colateral, a xantopsia, distúrbio de visão que faz enxergar tudo amarelo. Se Napoleão não se tivesse coroado imperador, atraiçoando o progresso político da Europa, Beethoven provavelmente não teria escrito a marcha fúnebre da Eroica, na sinfonia mais revolucionária da história da música. E se Beethoven não tivesse ficado surdo - seriam como são os últimos quartetos?

Com certeza não é por causa de peculiaridades ou acidentes pessoais que as obras de arte nascem e crescem; é a despeito delas, por cima delas, nutridas por outras forças físicas e espirituais. Depressões há muitas, mas só um São João da Cruz; e costumam ser imobilizantes, não fecundadoras. A energia necessária à criação não pode ser dispersada na cura de uma dor de cotovelo, nem provocada por ela. Pode ser agenciada ou catalisadora, dentro de limites. Certos artistas conseguem expressar mais, outros menos, afetos e experiências próprias. Mas como verdade comum para todos, como conclusão filosófico-estética, assiste razão à cinquentenária e definitiva advertência de Susanne Langer: a obra de arte exprime "sentimentos e emoções que o artista conhece, não os sentimentos e emoções que ele tem". O artista não se limita a tratar de "seus próprios sentimentos reais, e sim do que sabe sobre o sentimento humano". É bem mais profundo e bonito.

Ar de maldição

Nem Leonilson nem, civilizadamente, sua família fizeram segredo sobre a opção sexual e a causa da morte do artista. No plano da recepção mais imediata, ambas até coloriram seu legado, criando-lhe em torno um certo ar de maldição - o que ainda funciona, junto a plateias românticas. Presente o tempo todo, o elemento autobiográfico avulta a partir da identificação da doença. Entre outras mudanças (todas no rumo da economia e contenção formais), Leonilson - que até então fora um artista figurativo, membro da "geração 80", ligado à gárrula transvanguarda italiana - passa a criar também obras abstratas, compostas de quadrados ou retângulos de cor, resultantes da costura de tecidos diferentes. O que delas faz o contrário da abstração geométrica estrita, com sua reivindicação de impessoalidade, é a inscrição de palavras e textos de pura confissão, escritos ou bordados em letras miúdas. Não a palavra como elemento plástico da composição (procedimento vindo dos cubistas), mas a palavra poética plena, portadora de significado essencial.

Salta aos olhos que Leonilson poderia ter sido poeta de profissão, se quisesse. Seu domínio e uso da palavra são dessa natureza - o que, aliás, o singulariza em toda a arte brasileira. Através dos textos é que a confidência se torna preeminente, ainda que sempre com extrema discrição. Nem a mais remota sombra de ativismo gay, ou qualquer outro ativismo. Nenhuma reivindicação ou grito - ainda que alguma revolta e protesto. Referências aos amores, realizados ou perdidos, à incomunicação, à solidão, à morte anunciada. Escrito no desenho que dá título à exposição: "Sobre o peso dos meus amores / Eu vejo a distância / Eu vejo os atalhos / Eu vejo os perigos / Eu vejo os outros gritando / Eu vejo um / Eu vejo o outro / Não sei qual amo mais / Sob o peso dos meus amores". (Atenção para o jogo de preposições: sobre e sob). Bordado num tecido rendado: "Apaixonado / O Zigzag / 5 minutos / A porta / Pérolas / Abraços sem / Beijos". No alto de uma tela branca, de um lado e outro de uma pequena cruz: "Sim / Não"; mais abaixo, apenas: "It"s you / deep in me". Do papel ou tecido, suporte bidimensional, a palavra pode extravasar para objetos. Bordado na barra de uma saia longa de voile (costurada pelo artista): "O que você desejar, o que você quiser, eu estou aqui, pronto para servi-lo". Mais contundentemente, sobre a fronha cor de rosa de um pequeno travesseiro: "Ninguém".

Emoções possíveis

Assim como não foi a depressão que fez de São João da Cruz o que ele é, tampouco foram os sofrimentos que fizeram Leonilson. Contudo, não há nenhuma dúvida de que a descoberta da doença lhe acrisola a linguagem e a leva a alturas até então insuspeitadas, juntando-o a uns poucos grandes artistas (Farnese, Iberê Camargo, Krajcberg) que, no Brasil, defrontaram a morte como tema. Ao mesmo tempo o torna um caso-limite, na direção oposta à do outro caso-limite que foi Fernando Pessoa; nenhuma de suas dores é fingida. Será que isto constitui - isto pode ser usado como - critério de valor? Para haurir todas as emoções possíveis da marcha fúnebre da Eroica não é necessário conhecer sua filiação antinapoleônica. Diante de Leonilson, porém, assalta-me a dúvida: e se nada soubéssemos de sua tragédia, a obra seria igualmente eficaz? Se não pudéssemos contextualizar e entender suas confidências - seria igualmente pungente? Igualmente bela? Não é uma dúvida quanto ao mérito da obra; é uma dúvida sobre como processá-la.

Não ouso ter uma resposta. Remetendo-nos, apenas, a um caso análogo, recorro a um poema de Kavafis, o poeta favorito de Leonilson, que igualmente se serviu de sua sexualidade como motor da criação. A Leonilson só não se aplica o advérbio:

Eu me ponho a cismar. Sensações e desejos

foi o que eu trouxe à Arte; apenas entrevistos,

alguns rostos e linhas; de amores incompletos,

só a incerta lembrança. A Ela entrego-me,

que sabe afeiçoar a Forma da Beleza,

e quase imperceptivelmente, completar a vida

unindo as impressões, unindo os dias.

QUEM É

JOSÉ LEONILSON BEZERRA DIAS

PINTOR, DESENHISTA E ESCULTOR

Nasceu em Fortaleza (1957) e morreu em São Paulo (1993), para onde se mudou em 1961. Estudou com Julio Plaza, Nelson Leirner, Regina Silveira e Dudi Maia Rosa, entre outros. Sua última obra, uma instalação criada para a Capela do Morumbi em 1993, alude à fragilidade da vida.

SOB O PESO DOS MEUS AMORES - Itaú Cultural. Avenida Paulista, 149, telefone2168-1776. 9h/ 20h (sáb. e dom., 11h/ 20h; fecha 2ª). Grátis. Até 29/5.

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