Amor de Celso tão intenso quanto em 'Carinhoso' Sim

A esperança em conquistar a pessoa amada alimenta "Carinhoso", música de Pixinguinha, letra de João de Barro. A consciência do fim de um relacionamento alimenta a esperança num novo ciclo em "Pra que Chorar", versão brasileira do violonista e compositor Arthur Nestrovski para a música "Ich grolle nicht", de Robert Schumann e Heinrich Heine. As diferenças as tornam muito iguais. Especialmente quando quem canta é Celso Sim.

ROGER MARZOCHI, Agência Estado

19 de maio de 2011 | 08h14

A música, que já fazia parte do disco "Vamos Logo Sem Paredes" (2008), com uma pegada rock, ganhou o título do quinto disco do também compositor Celso Sim, lançado no ano passado em companhia do violão de Nestrovski. Mais intimista, o menino Nestrovski faz referências diretas a "Carinhoso" em alguns momentos da canção, reforçando em notas musicais o que escrevera Luiz Tatit na apresentação do penúltimo disco do cantor. "Nunca uma canção alemã foi tratada com tanto ''Carinhoso''."

O disco traz algumas composições solo de Nestrovski, como as belas "Cartografia" e "Filme Inacabado", ou em parceria com Eucanaã Ferraz em "Canção de Não Dormir", Cacá Machado em "Casual", e com Zé Miguel Wisnik em "Acalanto". Celso Sim também interpreta canções belíssimas em seu tom personalíssimo, como em "Um Favor", de Lupicínio Rodrigues, "Antonico", de Ismael Silva, "É doce morrer no mar" de Dorival Caymmi e Jorge Amado e "As rosas não falam", de Cartola. E, embora a forte influência desses cantores/compositores e de Milton Nascimento e Gal Costa, ouvi-lo a primeira vez é como sentir um Caetano Veloso ainda mais jovem e transgressor.

"Meu sonho esquizofrênico, maluco, é ter uma voz entre Janis Joplin e João Gilberto. O meu físico tem capacidade vocal de rock e ópera, daria um Fred Mercury. Mas com o passar do tempo, penso... pra que gastar tanta energia para cantar? O João Gilberto... ele ilumina, ele direciona o canto para um caminho oposto do ''bel canto''. Ainda hoje, dizem, ele tem uma voz pequenina. Tem nada! Tem uma extensão vocal magnífica, raríssima. O Roberto Carlos tem voz grande, mas ele canta suave. O Chico Buarque tem voz inacreditavelmente grande."

(En) canto - Nada é forçado em "Pra que Chorar". Nem a aparente contraposição explícita nas letras das músicas: o coração em "Carinhoso" bate feliz; em "Pra que Chorar", infeliz. Mas soa o mesmo forte e poderoso amor. Principalmente quando, em cena divulgada na web gravada pelo site Música de Bolso, Celso Sim faz uma versão voz e violão, na qual canta com o olhar da câmera, em alguns momentos, fixo na direção do teatro Cultura Artística, destruído por um incêndio.

Foi por meio da arte cênica que Celso começou a (en) cantar. Foi aluno da atriz Miriam Muniz, que dirigiu Elis Regina, a mesma Elis que também foi dirigida por Chico de Assis, importante ator e dramaturgo brasileiro do Teatro de Arena, infelizmente pouco lembrado. "Eu queria ser médico... Entrei no teatro porque o pessoal do teatro começou a frequentar minha casa. Tinha uma gente ''diferenciada'' que entrava em casa", brinca Celso, minutos após sair do metrô, em entrevista por telefone.

Mas sua relação com a música mudaria ao conhecer Jorge Mautner. "Aquilo que era cantar no teatro, que era fazer teatro musical, passou a ser música popular. E fui morar com ele na Áustria, onde gravei o primeiro disco, chamado ''Pedra Bruta'' (1992). E fiquei dez anos só cantando pelo Brasil e Europa com o Mautner. Ele me ensinou a compor música na cabeça, ouvindo a música na cabeça."

Depois desse período com Mautner, Celso entrou para o Teatro Oficina, de Zé Celso Martinez Corrêa. Atuou por três anos, mas por 14 se dedicou exclusivamente à composição para o teatro. Com Tom Zé e José Miguel Wisnik, venceu o Prêmio Shell de 2002 pela trilha de "Os Sertões: A Terra". "E quero voltar a trabalhar com o Zé Celso. Quero ficar três a quatro meses do lado dele. Porque ele é a pessoa mais criativa que eu conheço. E é uma alegria ficar com ele, sem a pretensão de entrar em cena. Os atores são muitos vaidosos."

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