Murilo Hauser/Divulgação
Murilo Hauser/Divulgação

Amor ao som da música

Sutil Companhia comemora seus 18 anos com Trilhas Sonoras de Amor Perdidas

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

17 Junho 2011 | 00h00

A maioridade será comemorada com alta dose de punk. Sábado, quando estrear Trilhas Sonoras de Amor Perdidas no Sesc Belenzinho, a Sutil Companhia de Teatro inicia os festejos de seus 18 anos. A peça retoma um assunto muito caro ao grupo (a importância da música nos relacionamentos) e que também conduziu o megassucesso da companhia, a arrebatadora A Vida É Cheia de Som e Fúria, de 2000. "Não se trata, porém, de uma continuação", avisa o diretor Felipe Hirsch, que também conduz Thom Pain / Lady Grey (2007) e Não Sobre o Amor (2008), montagens que retornam ao palco, completando o pacote de comemorativo.

De fato, sequências não combinam com a filosofia da Sutil. Fundada em Curitiba em 1993 por Hirsch e o ator Guilherme Weber (no ano seguinte, passou a contar também com a atriz e tradutora Erica Migon), a companhia sempre manteve uma conduta irrequieta - se a poética autoral e memorialística marcou os primeiros passos, logo o grupo combinou tanto a revisão de clássicos consagrados (como A Morte de um Caixeiro Viajante, de Arthur Miller) como o flerte com a vanguarda (Os Solitários, de Nicky Silver, e Temporada de Gripe, de Will Eno, são exemplos notáveis). "Com isso, formamos um público de teatro que começou acompanhando nosso trabalho e logo se expandiu, buscando novas linguagens", observa Hirsch.

Trilhas Sonoras de Amor Perdidas traz uma maturidade cênica que se adapta bem a essa evolução do olhar de sua plateia. A peça acompanha um jornalista (Weber) que mantém uma coluna no jornal e um programa de rádio. Sua busca primordial é por trilhas sonoras de amor perdidas: mixtapes, fitas cassete, sejam ou não acompanhadas por cartas de romance. "Ele pretende demonstrar como a música continua como uma forma de se comunicar uma paixão", comenta Weber. "Anos atrás, os amantes trocavam fitas cassete com uma seleção de canções cujas letras expressavam perfeitamente seu sentimento. Hoje, permanece igual, a música continua intermediando o amor - apenas as fitas foram substituídas pelo playlist de iPods."

Mas, se A Vida É Cheia de Som e Fúria, que tratava de um sujeito que fazia listas de músicas para falar do rompimento com a namorada, empolgava o público com o som dos Smiths e Joy Division, Trilhas invade o território punk do The Fugs e Pixies. "Há uma necessidade das pessoas em passar suas canções favoritas adiante, mesmo que a tecnologia evolua e os meios sejam trocados", completa Hirsch.

Mais que a música e as paixões, Guilherme Weber acredita que a peça trata essencialmente do tempo. "Trata-se do mesmo homem, mas em uma situação diferente: ele agora se sente incapaz de lidar com a mulher", comenta. "O tempo continua implacável, pois não para, mas seu avançar permite que as pessoas acumulem algum ensinamento sobre como enfrentar melhor esse fluxo."

Com duração de três horas, o espetáculo é visto pelo ator como um épico. "Há tantas referências que os espectadores certamente vão se identificar com alguns, se desligar do espetáculo e, depois de alguns momentos de reflexão, vão voltar a se conectar com a história."

O texto é fruto de 11 anos de anotações feitas pelo grupo. "Quando encenamos A Vida, pensávamos em fazer uma Trilogia Som & Fúria", conta Hirsch. "Mas logo tomamos outros rumos." As histórias, porém, especialmente de amigos, continuaram sendo recolhidas. Não apenas músicas, mas também cartas ajudaram a compor a dramaturgia, cujo texto final foi do diretor. "A montagem ganhou mais sofisticação, com uma dramaturgia elaborada e uma encenação de câmara."

Para isso, a cenografia de Daniela Thomas (outra ativa participante da companhia nos últimos 11 anos, ao lado do iluminador Beto Bruel e do diretor-assistente Murilo Hauser) concentra-se em uma sala de estar, repleta de pilhas de antigos LPs. Lá, o personagem de Weber encontra-se com uma mulher cuja única afinidade é a paixão pela música. Ao som do Velvet Underground, ele grava uma fita com suas canções favoritas para ela. É o começo do espetáculo.

A adesão do público é imediata: já não há mais ingressos para a primeira semana e a busca pelas demais continua. "As reações da plateia são muito fortes e extremamente autênticas", observa o diretor que, apesar disso, não faz concessões no trabalho. "Não acredito em quem diz desprezar totalmente o gosto do espectador, mas a Sutil busca seu próprio universo e convida esse espectador a mergulhar junto."

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