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Amor à venda

Peça do argentino Claudio Tolcachir mostra relações de troca e compra de afetos

Maria Eugênia de Menezes - O Estado de S.Paulo

09 de julho de 2013 | 02h06

SÃO JOSÉ DO RIO PRETO - Amor se compra, sim. Nem sempre conscientemente ou com intenção. Às vezes, sem que se saiba. Em outras, sem que se queira. Mas, mesmo quando invisível, o mercado dos afetos perdura. E, na hora certa, todo mundo deve receber sua fatura.

Em Emilia, novo trabalho do conceituado grupo argentino Timbre 4, um homem reencontra sua antiga babá. Após anos de separação, retoma o laço da infância. E passa a recordar os carinhos que recebeu de quem era paga para cuidar dele.

A obra surgiu de uma experiência biográfica de Claudio Tolcachir, diretor e dramaturgo da companhia portenha. Ao rever a própria babá, ele ouviu histórias de quando era criança, recordou fatos esquecidos e se pôs a compor uma ficção na qual um homem tem sua vida marcada por essa experiência.

O nome desse homem é Walter. "Esse afeto, pelo qual se pagava, ficou gravado em sua estrutura. Assim também é com o amor de sua família. Ele precisava que alguém o quisesse e, de alguma maneira, paga por isso. Não literalmente, com dinheiro. Mas é algo que lhe custa muito", comenta o encenador, que falou ao Estado poucas horas antes da estreia internacional da montagem.

O espetáculo, que integrou a programação do Festival Internacional de São José do Rio Preto, está em cartaz em Buenos Aires desde abril. Trata-se do quarto texto teatral de Tolcachir. E quem já conhece seu percurso como dramaturgo perceberá aqui a recorrência de algumas temáticas. Ou, melhor dizendo, de determinadas maneiras de ver o mundo.

O grupo Timbre 4 alcançou repercussão mundial com La Omisión de la Familia Coleman. O título correu mais de uma dezena de países, foi da Irlanda ao Panamá, e surpreendeu pela intensidade com que mostrava uma família à beira da dissolução. Seres que, mesmo atados uns aos outros, eram incapazes de conviver.

Na recente criação, a ironia cortante, que provocava risos na plateias de Familia Coleman, foi bastante atenuada. A cenografia também abandonou a intenção de reproduzir o interior da casa burguesa e preferiu ambientar a ação em um espaço mais abstrato. Porém, descontadas as diferenças, o autor continua a lidar com figuras igualmente desamparadas. E examina suas feridas cada vez mais de perto. Olha para a mãe ausente, para o filho patologicamente inquieto, para o pai que tenta fingir que tudo vai bem, cego para as demandas e os desejos dos que o cercam. "A diferença de Emilia em relação a outros trabalhos é que esses personagens têm mais consciência de sua realidade e são cúmplices dela", examina Tolcachir.

Quando chega à casa de Walter, a antiga babá se depara com amores fora de lugar. Sustentados menos pelo desejo que pelo temor de estar só. Tudo vai mal. Mas ninguém está disposto a romper com um estado de equilíbrio. Ainda que essa harmonia seja frágil, canhestra, precária. "Mesmo infelizes, eles trabalham para sustentar o que têm", considera o diretor.

É ambíguo o papel que a velha babá tem nessa história. Ela tudo vê. Pouco age. É, ao mesmo tempo, protagonista e mera coadjuvante dessa história.

Seu drama, ao contrário do que se poderia intuir, não é privado. As agruras de Emilia iluminam questionamentos de fundo político e social. Fala-se, sobretudo, de desconexão, "da incapacidade de sentir pelo outro, de se comover, verdadeiramente, por uma dor que não a sua", define Tolcachir.

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