Amnésia Legal

A nova lei escancara o embaraço e revela uma culpa latente e não purgada

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

11 Março 2018 | 03h00

As estátuas clássicas do mundo pagão eram valorizadas como obras de arte ideais no Renascimento. Porém, um detalhe perturbava os olhares modernos: a nudez. Para equalizar a admiração antiga com o pudor recente, criou-se o mecanismo de colocar um delicado detalhe vegetal sobre a área problemática. O opróbrio cristão fazia eco à vergonha dos nossos primeiros pais. Adão e Eva cobriram-se com a folha de figueira após o pecado (Gn 3,7). 

Qual o problema da solução decorosa? Feita de gesso, em geral, sobre um mármore amarelado ou mais escurecido pelo tempo, ela cobria destacando. O olhar fica fixado no elemento hipnotizador da folha alva. A pequena peça funciona como a peruca que o indivíduo careca coloca: ficamos focados no acessório. Perucas e folhas de figueira gritam onde se pretendia silêncio. 

O governo polonês entrou no mesmo caminho. Ao impor lei que pune quem falar da participação polonesa no holocausto, traz um destaque ao antissemitismo daquele país. O ódio contra judeus existe em muitas nações e não é um privilégio alemão. Todos sabem que a máquina de extermínio foi pensada pelo governo nazista, mas o preconceito era generalizado e os atos de violência contaram com o silêncio criminoso ou o apoio entusiasmado de pessoas da França, da Hungria, da Rússia e também da Polônia. A máquina de morte alemã jamais teria conseguido seu grau trágico de eficácia se tivesse contado com populações cúmplices da vida humana e não aliadas da pulsão de morte. 

Houve muitos casos de poloneses heroicos que arriscaram suas vidas escondendo judeus ou adotando crianças de famílias eliminadas. A violência hitlerista também tomou a vida de muitos poloneses. A construção de Auschwitz não nasceu de ordens de Varsóvia, porém se originou de comandos em Berlim. Ninguém duvida disso. Infelizmente, ao lado de resistentes pela vida, atos de ataque a populações judaicas também foram feitos por poloneses. O Holocausto tem sempre essa dupla face: ele criou heróis (que estão homenageados no jardim dos justos em Jerusalém) e deu azo a canalhas que, amparados pelo exército alemão, puderam expressar seu antigo e histórico racismo. Entre o herói e o canalha, existe uma outra categoria, talvez a mais numerosa, o cúmplice silencioso, que nada fez para ajudar e também não tomou parte direta nas mortes. A maioria calada é sempre a face tranquila do mal em todas as épocas. Como diz antiga oração penitencial católica, “peca-se por pensamentos e palavras, atos e omissões”. O extermínio dos judeus da Europa contou com as quatro categorias de fazer o mal. 

Memória não pode ser apagada pela lei. O dispositivo jurídico que criminaliza quem lembrar a óbvia e comprovada participação de civis de toda a Europa na matança é uma lei inútil, como a folha de figueira ou a peruca. Ao puxar o curto cobertor da memória para o peito desnudo, descobriu-se o pé gelado e antissemita. Talvez o mais grave não seja o horror do passado. O pior é que a lei revela a permanência daquele sentimento contra os judeus. 

Diante da memória do horror, o silêncio, mesmo imposto pela legislação, é o caminho mais equivocado. A Polônia sofreu muito na Segunda Guerra, como a Rússia e outros países. A melhor maneira de homenagear as muitas vítimas do nazismo (judeus, católicos, ciganos, homossexuais, comunistas, testemunhas de Jeová, negros, etc.) é expor que o ovo da serpente está lá, e que a memória é uma maneira de evitar o nascimento da ninhada viperina. A História é o remédio contra o nazismo. É preciso afirmar a memória crítica de tudo que ocorreu naqueles anos trágicos. Se todos os poloneses estudarem como milhões de alemães conseguiram apoiar o projeto genocida e como isso forneceu o guarda-chuva sob o qual outros povos puderam canalizar sua tradição de violência, teríamos mais esperança de registrar o nazismo como um equívoco pretérito. Se o genocídio de judeus na Segunda Guerra fosse uma empresa, a gerência seria alemã e sócios e funcionários teriam múltiplas nacionalidades, inclusive polaca. É o reconhecimento de que há um fio que vai do conceito russo de pogrom até o caso Dreyfus na França; da falsificação da polícia czarista da obra Os Protocolos dos Sábios de Sião até sua tradução nos EUA sob os auspícios do industrial Henry Ford; da recusa getulista em acolher muito mais gente que fugia do horror; do asilo que Perón concedia a criminosos de guerra até a placidez alpina dos banqueiros suíços que acolheram milhões em depósitos de famílias judaicas e silenciaram sobre os fundos por décadas. O holocausto é um fato internacional e traz à tona não apenas um projeto alemão, mas um ódio coletivo, irracional e criminoso. O Holocausto é europeu, o antissemitismo é mundial. 

“Nunca mais” é um bom propósito para estudos sobre o ódio. As leis não podem sufocar a memória. Nem em países de ditaduras absolutas como a URSS, o silêncio sobre a história conseguiu ser total. Em tempos de internet e contatos amplos, a lei polonesa só traz à tona que Hitler foi vencido, o antissemitismo, não. 

Lamento muito a iniciativa do governo de Varsóvia. Como nas estátuas renascentistas, estamos com os olhos fixos na vergonha que desejam esconder. O povo polonês sobreviveu a duas das mais brutais ditaduras da história, a nazista e a soviética. Torço para que sobrevivam ao nacionalismo atual do país. Como no Gênesis, a vergonha só chega após o erro. A nova lei escancara o embaraço e revela uma culpa latente e não purgada. Bom domingo para todos nós que temos memória. 

Mais conteúdo sobre:
Leandro Karnal Historiografia Holocausto

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.