"Amnésia" ganha versão linear em DVD

Se você é do time - minoritário, admitamos - que não se impressionou muito com as inovações de Amnésia, vai adorar o DVD com o filme de Christopher Nolan. Parece um contra-senso, mas é o seguinte. A Paris, que também lança o filme em vídeo, traz no DVD a prova de que Amnésia é a fraude do ano e uma grande bobagem. A empresa simplesmente incorpora aos extras um que leva o sugestivo título de Amnésia?, assim mesmo, com interrogação. Você clica e descobre que é a versão linear de Amnésia. Como, a versão linear? Sim, a versão cronológica, com começo, meio e fim. Aí fica perfeitamente claro que o filme é uma banalidade, coisa que o modismo adotado por Nolan para contar sua história pode disfarçar.Verifica-se com Amnésia algo parecido ao que ocorreu com Matrix, dos irmãos Wachowski. A ala teen da crítica adorou os jogos virtuais daquele filme. Na verdade, tirando as piruetas - e elas são a própria razão de ser - não sobra muita coisa que os fãs de artes marciais não estivessem carecas de ver (e saber). O mérito, ou a jogada, dos Wachowskis foi adaptarem os códigos das artes marciais ao imaginário dos espectadores da geração MTV. É mais ou menos o que ocorre com os jogos de linguagem de Amnésia. Colocada na ordem linear, a história do thriller de Christopher Nolan não tem atrativos para passar numa sessão da tarde. Do jeito que o diretor a conta ganhou admiradores que acham o filme genial.Críticos mais sizudos fizeram associações de Amnésia com filmes como O Ano Passado em Marienbad, de Alain Resnais com roteiro de Alain Robbe-Grillet, para dizer que nada, enfim, se cria, tudo se copia. Amnésia seria uma mera repetição das inovações de Resnais nos anos 60. Não é bem verdade. Resnais embaralha tempo e espaço, mas se você vir Marienbad muitas vezes e tentar colocar uma ordem seqüencial na desordem cronológica daquele filme vai ver que a história de amor, lá, também é bastante tradicional. É, até, o motivo pelo qual intelectuais sérios também não se impressionam muito com aquele clássico de Resnais, preferindo Hiroshima, Meu Amor, A Guerra Acabou e Providence, que possuem mais substância humana e até política, ao passo que o fascínio de Marienbad está todo na linguagem.Nunca é demais lembrar Guimarães Rosa, que dizia que a piada é como o fósforo: deflagrado, perde o uso. Um filme como Amnésia pode causar certa impressão, enquanto está sendo visto. Na ordem direta, cronológica, é nada. Nolan sabia disso e por isso, fez do método narrativo a razão de ser do seu filme. A cena inicial fornece a chave: tudo é visto de trás para diante. O filme inteiro vai ser construído assim, ao contrário. É a história de um homem que foi golpeado na cabeça ao flagrar o assassinato da mulher. A partir daí, Leonard Shelby, interpretado pelo ator australiano Guy Pearce - de Priscilla, a Rainha do Deserto e Los Angeles Proibida -, apresenta um comportamento singular. Lembra-se de tudo o que ocorreu antes, mas não consegue reter nada que ocorre depois. Esquece qualquer coisa - fato, diálogo - no minuto seguinte. E, mesmo assim, tenta se vingar.É um filme que deveria ser angustiante - Shelby passa o tempo registrando cenas e pessoas com uma polaróide, escreve bilhetes para ele mesmo, tatua informações no próprio corpo -, mas consegue ser apenas incômodo e, às vezes, para dizer a verdade, irritante. O recurso fuciona muito mais no curta brasileiro Palíndromo, de Philippe Barcinski, que estréia justamente nesta sexta-feira, nos cinemas, como complemento de Memórias em Super-8, de Emir Kusturica, no Unibanco Arteplex e no Top Cine. Esticado, exibe sua fragilidade. Mas, claro, essa é uma opinião um tanto solitária. Há pessoas capazes de jurar que Amnésia é um filme-farol, que aponta caminhos e daqui a um certo tempo será tão definitivo, na história do cinema, como Marienbad. Vamos fazer assim: como os personagens do livro famoso de Fernando Sabino, a gente marca um encontro para daqui a dez anos. E aí veremos se o filme de Nolan resistiu. Muito provavelmente, não. Mas sempre há a possibilidade - remota - de que sim. E aí? Encontro marcado?Serviço - Amnésia (Memento). EUA, 2000. Direção de Christopher Nolan, com Guy Pearce. Lançamento da Paris, em vídeo e DVD. Nas locadoras. O DVD custa, em média, R$ 49,90

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