Amizades garantem vinda das estrelas

Bem relacionada, Liz Calder atraiu os autores que desconheciam o Brasil

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

01 de agosto de 2010 | 00h00

O inglês Julian Barnes evita ler trechos de sua obra para uma plateia numerosa mas, na primeira edição da Flip, em 2003, ele foi ouvido por mais de cem pessoas. Mais desinibido, o inglês de origem paquistanesa Hanif Kureishi transformou, no mesmo ano, uma mesa do principal bar de Paraty em seu "escritório", onde "atendia" todo final de tarde. A amizade foi providencial para a formação do primeiro time de escritores estrangeiros que veio a Paraty. "Sempre contamos com excelentes curadores (o atual é Flávio Moura), mas, no início, foi importante conhecer pessoalmente alguns autores", conta Liz Calder que, como uma das fundadoras da editora Bloomsbury, sempre manteve uma cobiçada agenda de telefones.

Foi assim que diversos autores de língua inglesa logo eram vistos passeando pela cidade colonial, como Salman Rushdie, Michael Ondaatje, Margaret Atwood, Nadine Gordimer. Além da amizade, a editora oferecia também um roteiro irrecusável, com direito a passeios e pouco trabalho. "Paraty tem atrativos turísticos encantadores e logo os próprios escritores se tornaram uma espécie de embaixadores da Flip, divulgando o encontro para outros."

O inglês Martin Amis foi um deles. Durante sua estada em 2004, ao lado da mulher Isabel Fonseca, ele saudava o que considerava o bem-viver dos brasileiros. "Na Inglaterra, as pessoas estão longe de saber o que é isso", comentou. O profissionalismo também influenciava - segundo a canadense Margaret Atwood, Liz Calder é uma editora diferenciada por analisar os originais dos escritores primeiro como leitora, buscando detectar os detalhes agradáveis ao público. "Só então avaliava o livro como publisher", disse ela, que veio a Paraty na segunda edição da Flip.

Aos poucos, com a festa literária consolidando-se como o grande evento literário nacional, Liz foi delegando poderes aos curadores e hoje atua como uma eminência parda, aconselhando e sugerindo nomes aos curadores. "Ela teve e tem papel decisivo para a inserção internacional fora de série obtida pela festa, além de acompanhar de perto cada passo da programação", comentou Flávio Moura, em artigo publicado pelo Estado.

Liz não vive mais em Paraty, estabelecendo-se em Londres. O contato, no entanto, é contínuo, pois a relação com o Brasil já se solidificou: viveu aqui entre 1964 e 68, durante a implantação do governo militar, com o primeiro marido e duas filhas pequenas. Na época, ainda não trabalhava com literatura, mas como modelo - fez campanhas publicitárias, estampou capa de revistas e chegou a posar para um ensaio publicado no Suplemento Feminino. A profissão a ajudava a praticar o português graças às animadas conversas com maquiadoras e costureiras.

No início da década de 1970, voltou à Inglaterra, onde iniciou a carreira editorial até culminar, em 1988, com a fundação da Bloomsbury, pela qual editou megassucessos como a saga Harry Potter. Do Brasil, Liz levou discos de bossa nova, o papagaio Juju e muita saudade. Logo retornou, tornando-se editora inglesa de autores como Patricia Melo e Machado de Assis. Estava aberto o caminho para a Flip.

OFF FLIP

Efeito positivo

A passagem por Paraty em 2007 parece ter feito bem ao sul-africano J. M. Coetzee. Segundo seu agente literário, coincidência ou não, depois de participar da Flip, o escritor tornou-se mais amável e menos irredutível em relação a participar de eventos. Coetzee distribuiu sorrisos pelas ruas de Paraty, onde comprou doces caseiros.

Cachaça

"Minha memória ficou um tanto vazia depois que ontem topei com uma garrafa com uma cobra dentro", brincou o inglês Iwan McEwan, lembrando de uma excursão pelas casas de aguardente de Paraty, em 2001. Comentou-se à boca pequena que Paul Auster foi o grande destaque no "workshop" de cachaça.

Liberdade

Apesar do grande assédio, Chico Buarque conseguiu, em 2004, fazer o que gosta: entrou em um restaurante onde músicos tocavam uma música sua e disputou uma pelada à tarde com outros escritores.

Mudança

Liz Calder revelou-se flexível ao participar da escolha de escritores para a Flip - depois de não gostar da vinda da inglesa Lionel Shriver em 2009, aprovou sua participação neste ano.

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