Amis, fascinado pelo radicalismo do islamismo

Martin Amis impressiona, à primeira vista, pela figura sisuda e diminuta. A fala imponente, porém, torna maior sua estatura e a fina ironia logo relaxa qualquer ambiente, além de revelar um sorriso à la Ney Matogrosso - os dentes superiores são ligeiramente separados. Amis é um dos principais nomes estrangeiros da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) e, ao contrário de seus colegas de língua inglesa, viajou bem menos até chegar ao Brasil: desde janeiro, ele mantém uma casa em uma cidadezinha próxima a Montevidéu, capital do Uruguai, onde alterna períodos com sua residência em Londres. "Foi uma escolha da minha mulher (a escritora Isabel Fonseca, que também está na Flip), que tem ascendência uruguaia", explicou. Amis é um homem que nunca considerou criar uma carreira que não envolvesse a escrita. E isso não apenas por ser filho de um dos mais prestigiados autores britânicos, Kingsley Amis, morto em 1995, mas pelo conteúdo e pela forma de seus livros. "Escrever é um ato de liberdade", justifica. Porém, na mesa que vai dividir com Ian McEwan, no domingo, em Paraty, Amis não quer falar apenas sobre literatura. "Há uma enorme ação política que move o mundo hoje e que nos inspira", explica. "Atualmente, meu grande fascínio é pensar no radicalismo do islamismo. Trata-se de uma masculinidade derrotada uma vez que as mulheres estão quebrando tabus. Quem pensa a cultura hoje não pode se afastar desse tema." Seu trabalho mais recente, Experience, é uma obra de memórias, em que ele narra fatos pessoais de forma aleatória, sem seguir uma ordem cronológica. "Muitos fatos já eram públicos, por isso não me senti revelando algo novo", explica. "Minha pretensão era colocar no papel assuntos familiares que estavam coagulados desde a morte do meu pai e, se o fiz aleatoriamente, foi por uma liberdade típica de um ficcionista: dessa forma, consigo enfatizar aquilo que realmente me ficou marcado." Amis conta que foi um processo rápido, bem mais fácil que escrever ficção. "Quando produzo um romance, minha média é de cem páginas por ano; já com as memórias, o número subiu para mais de 200." A explicação, segundo ele, é que escrever memórias é como produzir um ensaio, ou seja, o autor utiliza uma parte do cérebro que é diferente daquela utilizada quando se cria uma história." A influência paterna ainda é forte. Martin Amis conta que Experience é um livro basicamente sobre ele e seu pai e as similaridades que foram surgindo na vida de um e de outro. "Não se trata de um mero esclarecimento do passado, mas algo que nos unia, que é passar por novas experiências literárias. Escrever essas memórias despertou em mim um apetite pela forma", conta o escritor, que aliás já se exercitou em diferentes estilos. Sobre Água Pesada e Outros Contos, por exemplo, publicado aqui pela Companhia das Letras, Amis conta que não sentiu a mesma dificuldade revelada por outros escritores, que se sentem tolhidos por espremer seu pensamento em tão poucas páginas. "Acho que escrever contos é mais fácil que romances", explica. "Na verdade, todo romance é um conto que não deu certo. Quando tenho uma idéia, normalmente penso como um conto, mas, em alguns casos, se transforma em romance. Um conto também ocupa um processo rápido - logo é publicado, já o romance é como um casamento." Amis também não se preocupa em criar uma carreira homogênea. Ele conta que faz muito tempo que releu seu primeiro livro, The Rachel Papers, publicado há exatos 30 anos. "Cada vez menos revejo meus escritos publicados, ao contrário do meu pai", conta. "Kingsley gostava de reler seus livros, talvez para descobrir focos que antes não lhe eram claros. Era uma maneira de aprender sobre o próprio ofício."

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