Amir Slama: estilo praia em verso e reverso

Estilista abre ateliê, mostra peças da nova coleção e prova que às vezes é preciso virar do avesso para acertar

Flavia Guerra, O Estadao de S.Paulo

14 de março de 2010 | 00h00

Não é preciso saber que, além de criar a Rosa Chá, Amir Slama deu à grife o status de desfilar na Semana de Moda de Nova York para saber que "quando se pensa em moda praia sofisticada, pensa-se Rosa Chá".

Com as criações desse historiador e ex-garçon, a mulher brasileira deixou de ser a "gostosa que desfila de cortininha e fio-dental" para se tornar "uma mulher classuda e, ao mesmo tempo, despojada, capaz de mixar pedrarias e seda com chapéu de palha e sandália rasteirinha". Trocando em miúdos, Slama foi responsável por elevar a praia à condição de alta-costura e virar assunto dos editoriais de moda de revistas como Vogue America e Harper"s Bazaar. Com um currículo que inclui ainda lojas espalhadas por vários países e fãs famosas, Slama não precisava inventar mais nada para continuar acertando. Já havia provocado revoluções suficientes para uma vida fashion. No entanto, é exatamente a direção oposta que esse autêntico membro do Bom Retiro resolveu tomar quando, em 2009, deixou a Rosa Chá após 16 anos de sucesso. Mais que isso, decidiu se aventurar pela fast fashion e "inventar" uma nova grife. Agora, Amir Slama se prepara para lançar em junho a primeira coleção da grife que leva seu próprio nome. O mote que sempre o motivou continua o mesmo: "Moda praia é estilo de vida, sai da areia e adentra a cidade, mas sem perder o luxo e glamour, claro."

Mas quando se toca a campainha do sobrado de Pinheiros, o atual QG do estilista, não é a sensação do glamour que se experimenta. A última vez que estive com Amir em São Paulo, fui recebida em um ateliê espaçoso na Vila Olímpia, com direito a Prosecco e finger foods (os famigerados canapés). Desta vez, vestindo despojados jeans e camisa, Amir abriu as portas de uma simpática "sala lá de casa". Um conforto quase caseiro, um perfume de café recém-passado, servido na bandeja forrada com toalhinha de renda, deu a sensação proustiana de se estar na oficina de costura da vizinha do bairro. Nas paredes, dezenas de quadrinhos coloridos mais parecem a sala de memórias da vovó. "São padrões, retalhos, desenhos e figuras que coletei ao longo dos anos em que pesquisei cada coleção. Resolvi enquadrar tudo", conta o filho de judeus que não por acaso começou seu negócio no Bom Retiro.

Após a pausa para o cafezinho, Amir conduz sua visitante como um amigo que abre sua casa. Mostra a sala da contabilidade, o escritório da fiel assistente Fabiana Tanaka, sobe as escadas do sobrado e abre a "caixa-forte". Em um dos quartos, máquinas de costura não deixam dúvida: é o QG de quem sabe que o valor das coisas está em sua essência. Dois passos adiante e encontramos uma parede forrada de cestinhas de armarinhos, dessas cheirando a 25 de Março, mas capazes de guardar um mundo. Mundo este que também está nas centenas de páginas que guardam ideias, desenhos e notícias sobre cada passo que Amir e sua Rosa Chá deram. "Me sinto meio nu mostrando tudo isso."

Nu mesmo Amir ficou ao perceber que a associação que teoricamente o deixaria livre para navegar por mares além, na verdade, quase naufragou. Em 2006, o estilista se associou ao grupo Marisol para poder ter mais tempo para criar e passar menos tempo administrando sua grife.

A aposta não vingou e, em 2009, ele vendeu sua parte ao grupo. Há que se admitir que desassociar o sobrenome Slama da Rosa Chá é tão difícil quanto não pensar em Coco quando se ouve Chanel. "Foi um longo processo. Em vez de aumentar, a produção caiu. Os pedidos vinham, mas não conseguíamos entregar. Sem contar as interferências na minha criação. Foi uma questão de dignidade a decisão de vender minha parte. Estava tudo surreal."

Tão surreal que foi exatamente o surrealismo o tema de sua coleção 2007. Se o surrealismo estava dando o tom à rotina de Amir, a decisão ousada de deixar sua própria cria surpreendeu. "Foi dolorido, mas foi bom. Estava num casulo. E agora descobri que há um outro universo."

Universo este que se expandiu até a fast fashion, a vertente popular da moda. Dias depois de deixar a Rosa Chá, foi convidado para desenhar para a C&A looks que levam informação de moda a um público que jamais pensaria em entrar em sua loja na Oscar Freire. Incansável, também se tornou diretor criativo da Trousseau, provando que "cama, mesa e banho" também pode ser alta-costura.

Como quem desfia um novelo, Amir vai mexendo em suas prateleiras e conta que está, de fato, remexendo os materiais e as ideias que não usou no passado para trazer o novo que surge de sua própria história. "Tomei decisões que me levaram a esta direção. Agora estou arrumando as prateleiras e descobrindo caminhos que me fazem muito feliz", diz, enquanto mostra os apliques de "Brasil" sobre camisetas penduradas em uma arara. "São da nova coleção da C&A. A Copa vem aí e pensei no verde-e-amarelo", explica ele, sob o olhar reservado, mas imponente de sua mãe. "Ela não é um charme?", enche-se de orgulho ao ver dona Margarete deixar o escritório, horas mais tarde, enquanto se reunia com a mulher Riva, para escolher com sua arquiteta e seu engenheiro os materiais da nova loja na Oscar Freire. "Quero tudo com muito estilo. Mais que loja, será um ateliê onde vou criar peças exclusivas para as clientes. Vai ser um luxo essencial", dizia, provando que o sangue de bom negociante correrá sempre em suas veias.

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