Amir Haddad e cia. revivem a essência de Molière

RIO

, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2010 | 00h00

Um grupo de teatro encena uma peça sobre um grupo de teatro que encena uma peça. Isso sem que se tenha um texto totalmente fechado. Parece confuso, mas no palco do Espaço Tom Jobim (Rua Jardim Botânico, 1.008), no nível da plateia, Escola de Molières, a mais recente montagem do diretor Amir Haddad, tudo se resolve.

Vestidos com figurinos que remetem ao século 17, os 28 atores da Escola integram a trupe de Haddad e a de Molière, o nome com o qual o comediógrafo Jean-Baptiste Poquelin (1622-1673) entrou para a história da arte mundial. Vivem as personagens de O Improviso de Versalhes, que o ator e dramaturgo francês escreveu em 1663, e que serve tanto agora ao fundador do Tá Na Rua.

"A situação que nós vivemos é muito parecida com a de Molière. Nossa peça também não está pronta", diz Haddad, que estreou no teatro do Jardim Botânico, no Rio, no dia 30 de julho, e lá fica em cartaz até 19 de setembro. "É sempre assim, sempre gostaríamos de ensaiar mais. Não precisa ser tudo superbem-feitinho."

Na estreia, com duração de 3h30, o público pegou alguns atores ainda com os textos na mão. Quando um esquecia uma frase, o outro rapidamente o lembrava. Haddad, que fizera um prólogo explicando as semelhanças entre a montagem de Molière de O Improviso e a sua, também assistia à encenação.

"Prefiro que não tenha estreia. Você não pode isolar o público do processo. Tenho dificuldade de mostrar um cadáver maquiado para a plateia, o espetáculo pronto. Você acaba eternizando algo que é morto. Meus espetáculos só vão ter a cara final depois. Odeio essa coisa oficial, por isso meus ensaios nunca foram fechados", o diretor explica.

É essa a perfeita tradução do conceito de "espetáculo marsupial" de Haddad: como o filhote de canguru, que não se desenvolve totalmente no ventre da mãe, mas se "completa" já nascido, na bolsa abdominal, a peça depende desse tempo sob o olhar dos espectadores para ser finalizada - assim, entra em contato com "o vento da vida", como enxerga Haddad. "É como os espetáculos na rua, que mudam no dia a dia."

As linhas retas da arquitetura do Espaço Tom Jobim contrastam com o lustre cheio de pendentes colocado ao centro. A costura dos textos por vezes confunde o espectador não familiarizado com a obra de Molière, mas aparentemente toda a plateia embarca com os atores na aventura em busca de uma peça.

Oficinas. Foi no mesmo teatro que se desenvolveram as oficinas e os ensaios do grupo de Haddad, que já haviam resultado em outra peça, Bodas de Sangue, de García Lorca, ano passado. Escola consumiu oito meses de trabalho, metade só de ensaios. Em cena, os atores vestem calças, saias, corseletes e blusas de vários acervos de teatro e cinema, e também do Tá Na Rua.

Ali é a sala do Palácio de Versalhes, onde Luís XIV espera ver encenada a comédia que encomendou a Molière para entreter sua corte. Os personagens da peça de Haddad são os atores da peça de Molière. Estes, por sua vez, interpretam senhores e senhoras da aristocracia e burguesia francesas ridicularizados pelo dramaturgo, mestre na criação de textos de duplo sentido que debocham da hipocrisia reinante entre os nobres - ele acreditava que o teatro era um meio propício para fazê-lo.

Esta é a primeira parte, que é recheada de músicas. Os atores tomam conta de cada centímetro do palco, dançando, correndo. A segunda parte traz trechos de alguns dos textos mais conhecidos de Molière, como Escola de Mulheres (1662), Don Juan (1665), O Avarento (1668) e O Doente Imaginário (1673), encenadas até hoje por outras trupes.

A de Haddad tem atores de 22 a 70 anos, com apenas três meses ou 30 anos de palco - os únicos rostos conhecidos do público são os de Tereza Seiblitz e de Catarina Abdalla, por conta mais do trabalho das duas na televisão. "Gosto dessa heterogeneidade", ele saúda. "Os mais novos não têm os vícios dos mais velhos, que trazem a experiência. Um coletivo homogêneo é destruído por um mesmo vírus, um mata todos."

"Escola é um espetáculo sobre o ator brasileiro", ele anuncia no programa, ilustrado com imagens do século 17, é "uma tentativa de devolução ao ator de sua capacidade de opinião e de exercício pleno de sua cidadania". / R.P.

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