Amir Haddad concorre ao Multicultural

Se fosse esmiuçada em um currículo tradicional, a carreira do diretor, ator e professor de teatro Amir Haddad ocuparia várias páginas, dezenas talvez. Afinal, sua estréia ocorreu em 1957, com Cândida, de Bernard Shaw, em São Paulo, e, antes de se fixar no Rio quase dez anos depois, participou de movimentos decisivos na história teatral como o Oficina. Consagrado, mas ainda insatisfeito, revolucionou ao recusar o teatro entre quatro paredes e organizou o Tá na Rua, grupo especializado em apresentar espetáculos gratuitos em praças e ruas. "Foi a melhor maneira que encontrei para manter uma relação mais próxima e horizontal com o público", justifica o mineiro Haddad, ainda pleno de idéias a poucos dias de completar 64 anos. Entre os planos mais imediatos estão a direção de Mão na Luva, peça de Oduvaldo Viana Filho que será encenada por Pedro Cardoso e Maria Padilha; a participação, como ator, no filme O Homem do Ano, de José Henrique Fonseca; e a reestruturação da programação do Teatro Municipal Carlos Gomes, um dos mais tradicionais do Rio. E, apesar de o dia ter apenas 24 horas, ainda encontra tempo para cuidar dos projetos do Tá na Rua. Tamanha energia em viver intensamente o presente, com aparente indiferença ao passado glorioso, garantiu a Amir Haddad uma das indicações para o Prêmio Multicultural 2001 Estadão Cultura, que será entregue em julho. "Apesar de diversificado, meu trabalho sempre buscou recuperar o sentido de festa do teatro e a dramaticidade das festas populares", teoriza o encenador, já preocupado com outros projetos, como as palestras que vai dar em Macapá, no Amapá, e a organização das festas de abertura e encerramento da Feira de Cultura da cidade de Goiás, município goiano prestes a ser escolhido como patrimônio da humanidade pela Unesco. "São momentos maravilhosos, pois a população participa com tanta devoção que me enriquece com inúmeras idéias." A empolgação com que Haddad dirige os espetáculos de rua também é apaixonante. Depois de distribuir figurinos para um grupo de atores, ele os incentiva com música popular e improvisações. E, em meio ao espetáculo, movimenta-se com desenvoltura, provocando os artistas e o público, incitando conflitos, produzindo emoção. "É teatro de protesto, protesto contra a pequenez do mundo e em favor da grandeza humana", escreveu, em artigo para o Estado de S. Paulo há alguns anos, o encenador e dramaturgo Domingos Oliveira. "Amir é o depositário como diretor de teatro, talvez o único remanescente, deste salutar sentimento chamado indignação social." A opção política, aliás, é cristalina no trabalho de Amir Haddad, sempre preocupado com a ressonância comunitária. "Meu objetivo é abordar temas que tenham relação com o cotidiano dos brasileiros", afirma. "E, para isso, tive de romper com a tradição do teatro burguês, que impõe uma distância entre palco e platéia." Tudo começou no fim da década de 70, quando Haddad já acumulava dois prêmios Molière (1968 e 1970) e um Governador do Estado do Rio de Janeiro (1972). Ele ainda se recuperava de uma crise com a arte, provocada pelo gosto efêmero do sucesso - apesar de consagrado, Haddad não se dispunha a viver montando clássicos, que lhe garantissem manter a glória. Desconsolado, abandonou o teatro, negando-o durante dois anos. Viajou e só retornou depois de recuperado da dor. Foi em 1974, quando trabalhava com um grupo de ex-alunos, que vislumbrou o caminho que buscava. Montou Somma - Os Melhores Anos de Nossas Vidas, no Teatro João Caetano, coletâneas de cenas diversas, em que rompeu com os procedimentos tradicionais do palco italiano, especialmente a dramaturgia e a relação dos atores com a platéia. "Tudo acontecia no palco e nos camarins, sem texto fixo: a cada dia, montávamos um espetáculo diferente, polêmico" relembra Haddad. "Foi também o momento em que constatei que a força do teatro estava na linguagem e não na mensagem." O processo exigia uma nova construção no trabalho do elenco. Para ele, o ator tinha de recuperar a qualidade de ser livre ou, nas suas palavras, "arrebentar a couraça ideológica". "Como se trata de um ser dotado de um dom especial, ele precisava abandonar a posição de isolamento criada pela fama e adquirir uma consciência social crítica." Para isso, era necessário também modificar a relação do ator com o diretor. Assim, a primeira medida foi acabar com as diferenças de poder. Se o encenador ainda mantinha a palavra final na criação, o ator deixava de ocupar uma posição submissa, apenas acatando ordens, e participava ativamente da criação. "Como eu pregava uma concepção mais democrática do teatro, o exemplo tinha de começar dentro do meu próprio grupo", explica. Finalmente, para fechar o ciclo, era preciso reformular também a prática do dramaturgo. Haddad percebeu que os autores estavam cada vez mais distantes do ambiente teatral. "Eles se transformaram em literatos, afastando-se de momentos importantes como a inquietação dos ensaios", percebeu. "Brecht vivia em meio a uma companhia teatral e, com isso, produziu uma dramaturgia viva e vigorosa." Também a limitação das obras incomodava o diretor, que percebeu dispor apenas de peças para o fechado espaço do palco do teatro. "Além disso, o texto sempre vinha acompanhado de inúmeras rubricas, como ´o elefante tem de ficar à esquerda e a Torre Eiffel à direita´, o que limita a criação." O rompimento de todas as amarras só era possível, portanto, com o teatro ocupando os espaços públicos abertos. Surgia, então, em 1979, o Tá na Rua, com um espetáculo inspirado na literatura de cordel: A Moça Que Beijou um Jumento Pensando Que Era Roberto Carlos. "A rua me permitiu abandonar a dramaturgia", conta Haddad, que precisou de pelo menos dez anos para compreender com perfeição a nova forma de trabalho. A certeza de que finalmente detinha o domínio de atuar em praça pública veio com o convite do carnavalesco Joãosinho Trinta para cuidar da ala dos mendigos, no desfile da Beija-Flor em 1989. "Ele sabia que eu detinha uma teoria acumulada de trabalho na rua e, da minha parte, era a primeira vez em que eu podia contar com uma estrutura de produção: 300 pessoas em movimento na avenida." A experiência consagrou a radicalidade Haddad que, se no início do trabalho era tachado de maluco, agora era reconhecido pela busca de uma linguagem substantiva para o teatro. A confiança encorajou-o a finalmente montar uma peça de Shakespeare. "A convivência com a rua permitiu que eu conhecesse melhor a sua obra", comenta o encenador, que dirigiu uma versão popular de O Mercador de Veneza, em 1996. "Shakespeare fazia um teatro a céu aberto, que era visto tanto pelo público mais humilde e rude, que dialogava com os atores em cena, como pelos membros da elite." Ao mesmo tempo em que resgatou o efeito mais festivo da obra do dramaturgo inglês, Haddad acumulou convites para organizar espetáculos populares, como Auto de Natal em diversas cidades nordestinas. Ao participar de festivais internacionais de teatro experimental no Egito e na Tunísia, o diretor conseguiu consolidar seu pensamento. "Levei um susto ao me confrontar com a cultura árabe, que não sofre interferência externa", conta, lembrando ser filho de sírio, cujo nome de família significa ferreiro. "Descobri que somos um povo católico totalmente dominado pela filosofia burguesa protestante o que não pode figurar em meu trabalho." O clareamento das idéias, aliado a uma indestrutível determinação, move Amir Haddad em seus novos projetos. Além dos já mencionados, vai comandar um seminário de dramaturgia. Planeja também revitalizar a Praça Tiradentes, onde está localizado o Teatro Carlos Gomes e atual ponto de criminalidade - em dezembro, vai organizar o Natal na Praça, transformando a região em um espaço medieval. "Como entendo bem de rua, quero exorcizar o espaço."

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