Amilcar de Castro faz do concreto poesia

Arte é emoção. Essa opinião, vinda de um artista rigoroso como Amilcar de Castro, pode até parecer curiosa. Mas, na verdade, ela só evidencia a encantadora capacidade do artista de fazer poesia a partir de um repertório tão concreto quanto as formas geométricas construídas a partir de um material tão pouco maleável quanto o ferro.Avesso a tecer longos comentários sobre a obra que vem construindo ao longo de quase 50 anos de carreira e que faz com que ele seja apontado por muitos como o maior escultor brasileiro vivo, Amilcar se limita a ressaltar que "não existe inteligência se antes não há sensibilidade; não há nada no intelecto que antes não tenha passado pelos sentidos."Sua obra delineia o espaço de forma direta, clara, como será possível observar nas esculturas e desenhos que a Galeria Thomas Cohn expõe a partir de sábado, em homenagem aos 80 anos do artista."Gosto de coisas retas, diretas, simples; gosto de fazer uma escultura que não deixa restos", diz. "Talvez porque seja um admirador de Machado de Assis", acrescenta ele, lembrando que o escritor constrói sua trama de forma tão coerente que "você não tem como pensar diferente daquilo".Mas a concisão e o rigor perseguido por Amilcar de Castro não têm de forma nenhuma a frieza do construtivismo conceitual. Ele constrói formas limpas, que não escondem nada, mas que pertencem a este mundo e não ao mundo das idéias. Como outro de seus ídolos, o escritor também mineiro Guimarães Rosa, ele constrói sua obra de poesia, nem sempre optando pelos caminhos mais fáceis.Quando pega uma grossa chapa de ferro e a dobra ao meio, ele deixa evidente as características básicas do material, que resiste o quanto pode a essa intervenção. Até a cor de suas esculturas preserva a personalidade da matéria-prima, remete às Minas Gerais, seu Estado natal. Desde 1953, quando realizou sua primeira escultura, inspirado numa obra do suíço Max Bill (a quem critica por ter buscado fazer uma arte pura, sem emoção), Amilcar lidou com o espaço de diferentes formas. Soldou, dobrou e cortou o ferro.Um mesmo querer - Essas experiências, que foram se acumulando ao longo das últimas décadas, estão quase todas representadas na mostra paulistana, apesar de só obras recentes estarem reunidas na exposição. Faltam apenas as experiências com madeira e pedra, que o artista expôs há três anos na cidade, mostrando que preserva um impressionante vigor e uma enorme liberdade criativa. Mesmo sabendo que seu trabalho às vezes toma rumos distintos, Amilcar afirma que eles estão todos "sempre no mesmo caminho, no mesmo querer"."Poder olhar num mesmo espaço trabalhos tão distintos ajudará a entender melhor não só a diversidade de sua obra, mas também a razão de Amilcar permanecer fazendo obras novas das séries anteriores", escreve o crítico Rodrigo Naves no catálogo da mostra. Segundo ele, essa seria uma forma de "manter presente essa identidade fugidia do material". Naves, aliás, é autor de uma das mais interessantes análises sobre a obra de Amilcar de Castro, publicada no livro "A Forma Difícil".Ao identificar o caráter público, altruísta e sobretudo brasileiro da obra de Amilcar, o crítico revela a ponte existente - mas nem sempre clara - entre a pesquisa formal e a necessidade de traduzir plasticamente seu mundo, por meio de trabalhos que - graças a sua densidade, tensão e imobilidade - "sublinham uma dimensão estratificante e tacanha do Brasil, sem contudo transformá-la numa espécie de atavismo imune a qualquer tipo de mudança".Filho de um juiz e tendo ele mesmo estudado Direito antes de perceber que não tinha talento para isso, Amilcar sempre teve posições políticas claras, nacionalistas e de esquerda. Ele considera a elite brasileira a grande responsável pelas mazelas do País. "A elite brasileira é a pior do mundo", diagnostica, lembrando que qualquer elite pensa seu país com alegria, a americana, a alemã... "Já a brasileira pensa no Brasil doido para ir para Miami, enquanto o povo fica jogado fora, na miséria", conclui.Quando ainda era estudante de Direito, ainda em Belo Horizonte, Amilcar conheceu Guignard, um dos maiores pintores que o País já teve e que seria vital para sua formação. Foi com Guignard que ele aprendeu a importância do desenho. O pintor procurava ensinar a precisão e o controle do traço ao estimular seus alunos a utilizar apenas o lápis mais duro que houvesse, de forma que qualquer erro ficasse no papel, sem poder ser apagado.Essa lição calou fundo. Toda a obra de Amilcar nasce no desenho. É a partir dele que ganham vida suas gravuras, sua pintura, suas esculturas ou os belos projetos gráficos que desenvolveu para vários jornais do País. "Não penso em nada senão fazer o desenho", afirmou o artista em entrevista por telefone, antes de embarcar para São Paulo. Até na sua poesia o desenho está presente, tanto no conteúdo quanto na forma.Talvez isso também explique a impressionante coerência entre suas várias formas de expressão. É interessante notar, por exemplo, que peças de pequena dimensão têm uma presença, uma intensidade tão forte quanto obras de grandes dimensões. Afinal, a mesma poética está presente tanto nas maquetes em que testa seus desenhos quanto em obras monumentais como a peça de 25 toneladas que fez para a cidade alemã de Hellersdorf. - O primeiro trabalho artístico de Amilcar de Castro foi como diagramador da revista Manchete, conseguido por um colega seu da Faculdade de Direito. Em seguida mudou-se para o Rio, onde criou o novo projeto para o Jornal do Brasil e aproximou-se dos artistas que viriam a formar o movimento neoconcreto, uma tentativa de conciliar as experiências concretistas com a dimensão emocional. Segundo Amilcar, em uma longa entrevista publicada pela editora Circuito Atelier, esse foi "o maior acontecimento da arte brasileira, muito mais forte e importante que a Semana de 22".Nesse livro, Amilcar fala sobre vários momentos importantes de sua vida, narrando experiências interessantes como suas tentativas de afirmar-se como artista, a bolsa Guggenheim que o levou aos Estados Unidos em 1967 e a importância da situação política brasileira para seu retorno a Belo Horizonte. "Quando voltei para o Brasil, tentei ir para o Rio, depois para São Paulo, mas estávamos no governo Médici, estava tudo muito ruim e existia uma falta de esperança geral", conta.Outra revelação interessante é que o uso do ferro - sua matéria-prima por excelência - deve-se muito ao fato de que esse metal é facilmente encontrável por aqui. Se Amilcar fosse americano provavelmente teria de se contentar em fazer obras em alumínio, material que experimentou em sua estada nos EUA e que detestou por "não ter caráter".Achando muito boa essa história de ter 80 anos de vida, Amilcar continua produzindo muito. "Não sou de parar", diz ele afirmando que desenha todos os dias e que, de vez em quando, passa para fazer esculturas. Ele está, aliás, construindo um novo ateliê na estrada para Nova Lima, onde produz suas peças, para facilitar sua produção e ter um lugar maior para guardar seus trabalhos."Acho que arte é vida, sem ela não dá para viver", conclui o artista, lembrando que "a maior necessidade do ser humano é a transcendência, estar além, sempre além".Amílcar de Castro. De segunda a sexta, das 11 às 19 horas; sábado, até 14 horas. Galeria Thomas Cohn. Avenida Europa 641, tel. 883-3355. Até 14/10. Abertura às 11 horas

Agencia Estado,

13 de setembro de 2000 | 19h27

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