Amigos e parentes dão adeus a Rachel de Queiroz

O corpo da escritora Rachel de Queiroz, que morreu ontem aos 92 anos, segue nesta manhã em cortejo para o cemitério São João Batista, no bairro de Botafogo, onde será enterrado. Batedores da Guarda de Honra do Corpo de Fuzileiros Navais acompanham o trajeto. A cerimônia de encomenda do corpo na Academia Brasileira de Letras, reuniu amigos, parentes e acadêmicos.Ontem, no velório, as palavras de intelectuais e parentes se repetiam: vanguardista, extraordinária, forte e doce. Entre o meio-dia, quando o corpo chegou à Academia Brasileira de Letras (ABL), no centro do Rio, e o fim da tarde, mais de 150 pessoas haviam passado pelo Salão dos Poetas Românticos para ver, pela última vez, a primeira mulher a ingressar na ABL. Vestida com o fardão de imortal, tinha um ramalhete de violetas nas mãos e, embora quase imperceptível, estava deitada sobre a rede na qual costumava dormir. Um dos primeiros a chegar ao velório, o presidente do Senado e acadêmico José Sarney definiu Rachel como uma figura de vanguarda, por ter renovado a ficção com o romance O Quinze e pelo pioneirismo na ABL.Lygia Fagundes Telles foi pega de surpresa. Saiu ontem de São Paulo, de ônibus, para uma conferência de Ferreira Gullar na ABL e, ao chegar, estranhou as coroas de flores na entrada da instituição. "Estou assustada até agora. Eu gostava muito da Rachel", afirmou, chorando. A escritora cearense foi madrinha de Lygia na eleição para a ABL. "Eu dizia: Rachel, não vão votar em mim. E ela respondia: deixa por minha conta"Pioneirismo - Para o também acadêmico Carlos Heitor Cony, Rachel foi "a matriarca da literatura regional", cujo trabalho antecipou obras marcantes do gênero, escritas por Graciliano Ramos, José Lins do Rego e Jorge Amado. Única irmã da escritora, Maria Luiza de Queiroz Salek, de 75 anos, contou que Rachel acordou ontem muito cedo, com tontura, e chamou pelo segundo marido, Oyama de Macedo, pelos pais e disse que queria voltar para o Ceará. "Depois ela voltou a dormir e não acordou mais?, disse Maria Luiza, acrescentando que, naquele momento, só a enfermeira estava com Rachel.O ministro da Cultura, Gilberto Gil, enviou uma nota de Moçambique. "Desde o aparecimento de O Quinze, contundente romance regionalista e de cunho social, premiado pela Fundação Graça Aranha, Rachel prenunciava a renomada escritora que iria ser", dizia o texto. "Com seu desaparecimento, a literatura e a cultura brasileiras ficam empobrecidas, restando-nos o consolo de sua obra imortal." O velório de Rachel, cronista do Estado, ficou aberto ao público até as 22 horas. Ao lado do caixão, quatro integrantes da guarda de honra dos Fuzileiros Navais, de quem ela era madrinha, prestaram uma última homenagem.

Agencia Estado,

05 de novembro de 2003 | 09h46

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.