Amigo é coisa para se guardar

Amigo é coisa para se guardar

Novo filme de Harry Potter fortalece trio de protagonistas

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2010 | 00h00

Como produto da indústria cultural, Harry Potter e as Relíquias da Morte chega avassalador. Serão, a partir das 23h55 de hoje, 700 cópias, cerca de um terço do mercado exibidor do País. A estratégia de lançamento é de terra arrasada. A publicidade cria a demanda, mas os fãs da série de livros e filmes de J.K. Rowling não precisam mais ser "cooptados". Há uma legião de leitores/espectadores que quer passar pela primeira parte do sétimo filme, Harry Potter e as Relíquias da Morte, na certeza de que é isso mesmo - uma transição. Em julho do ano que vem chega a segunda parte e, aí sim, a saga do bruxinho de Hogwats estará completa.

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Alguns (muitos?) críticos reclamam. O fenômeno é comportamental, mercadológico, de marketing. Dêem-lhe o nome que quiserem, mas não é "artístico". O pior, considerando-se a lógica de combate ao cinemão, é que é artístico, sim. David Yates tem feito um belo trabalho na série. Os dois primeiros filmes, Harry Potter e a Pedra Filosofal e A Câmara Secreta, ambos realizados por Chris Columbus - que formatou a série toda para a tela e, muito importante, escolheu o elenco -, eram expositivos, demasiado atrelados aos livros. Só agradaram aos fãs de carteirinha.

As coisas começaram a melhorar com Alfonso Cuarón (Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban) e Mike Newell (O Cálice de Fogo). O primeiro resgatou a aventura e a magia, o segundo investiu na densidade da história que mescla família, amizade e vingança. E aí veio David Yates - A Ordem da Fênix, O Enigma do Príncipe e as duas partes de As Relíquias da Morte. Yates é um multipremiado diretor inglês de TV e cinema. Emmys, Baftas - ele ganhou os prêmios mais prestigiados, não é um artesão qualquer.

É aplicado - antes de fazer A Ordem da Fênix, mas já contratado, acompanhou Mike Newell como observador no set de Cálice de Fogo. Encontrou-se com Cuarón e J.K. Rowling para discutir a série e seus personagens. Isso lhe deu uma visão , totalizadora do projeto. Não por acaso, O Enigma do Príncipe ganhou a classificação "fresh" (fresco, saudável) na lista de cotações do site/troféu Tomates Podres. Seria, realmente, mais fácil para todo mundo se a indústria cultural não tivesse seus "autores" - Peter Jackson, Tim Burton e Christopher Nolan, entre outros.

As Relíquias da Morte dura mais de 2h30 e sua narrativa não para. Existe a anaconda de Voldemort, uma cobra gigantesca que duas vezes arregaça a boca para a câmera - sim, o efeito é sob medida para fazer o público saltar da poltrona nas salas em 3-D ou Imax. De resto, essa primeira parte é muito movimentada, uma caçada sem fim, permeada de suspeitas. Se, no desfecho de O Enigma do Príncipe, Hermione prometia a Harry que ele nunca estaria sozinho, o bruxinho, consciente de que todos, ao seu redor, tornam-se vulneráveis às forças de Voldemort, tenta partir sozinho, o que provoca a reação de Ron - a luta é por Hogwarts, é pelo mundo, é muito maior do que Harry, somente.

Trio desagregado. Isso não impede a amizade de ser colocada à prova, devido ao ciúme e à desconfiança que ameaçam desagregar o trio Harry/Hermione/Ron. Pode-se criticar e até não gostar dos filmes realizados por Chris Columbus, mas ele foi certeiro na seleção do elenco. Daniel Radcliffe, Emma Watson e Rupert Grint são tão indispensáveis para o êxito da série quanto Robert Pattinson, Kristen Stewart e... o são para o sucesso de outra série, Crepúsculo - mas o trio de Harry Potter é melhor, do ponto de vista da interpretação.

Uma história de caçada, de amizade posta à prova, de crise. Pode ser uma escolha puramente subjetiva, mas o grande - embora pequeno, no talhe - personagem de As Relíquias da Morte é o elfo. Ele tem as cenas mais divertidas e a mais emocionante. "Este é um belo lugar para estar com os amigos." David Yates está conseguindo transformar um item de consumo da indústria cultural em obra de arte.

A saga e os números no Brasil

link Harry Potter e a Pedra Filosofal, de Chris Columbus. O primeiro filme, de 2001, foi lançado com 484 cópias e fez 4.583.683 espectadores no País. No total, a saga do bruxinho de Hogwarts no cinema teve cerca de 26 milhões de espectadores brasileiros, até agora

link Harry Potter e a Câmara Secreta. Também de Chris Columbus, o segundo filme teve menos cópias (450) e mais público, 4.597.315 pagantes

link O Prisioneiro de Azkaban, de Alfonso Cuarón. 500 cópias e o menor público, 3.355.659 pagantes

link O Cálice de Fogo, de Mike Newell. O número de cópias aumentou para 710 e o público também foi o maior, por episódio isolado - 4.663.610 espectadores

link Harry Potter e a Ordem da Fênix. O primeiro filme assinado por David Yates na série teve o maior número de cópias no Brasil até agora, 750. E alcançou 4.253.860 espectadores

link Harry Potter e O Enigma do Príncipe. Também de David Yates, foi lançado com 500 cópias no Brasil, fez 4.527.620 espectadores. O novo filme fará quanto?

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