Amigo de Saramago por obra do acaso

Ex-ministro da Justiça conta como começou a se corresponder e estreitou laços de amizade com Saramago durante uma viagem à Portugal

Carolina Spillari, do Estadão.com.br,

18 de junho de 2010 | 14h20

O advogado criminalista José Carlos Dias, ex-ministro da Justiça (governo FHC), começou sua amizade com José Saramago de forma inusitada durante a década de 80. Fã do escritor, de quem leu todos os livros, brincou com amigos que organizava uma excursão a Portugal na qual o mais famoso escritor lusitano seria o guia.

 

Diante da riqueza de detalhes dos locais que seriam visitados, todos extraídos dos romances do ilustre guia, os amigos se animaram a participar. Mas, quando descobriram que a viagem não passava de ficção, exigiram que Dias confessasse sua pequena mentira em uma carta ao escritor.

 

O advogado enviou então um relato da peça pregada nos amigos e, para sua surpresa, algum tempo depois recebeu uma resposta, iniciando então sua correspondência com o romancista.

 

Em setembro de 1992, José Saramago veio ao Brasil por ocasião dos seminários "A Experiência do Século", em Porto Alegre, e "América 92", em São Paulo. Na ocasião, teve um desentendimento com a organização e pediu a Dias que intercedesse por ele para resolver a questão.

 

A amizade se aprofundou, e Saramago chegou a aceitar um convite para jantar na casa de Dias. Pouco depois, o advogado e sua mulher, Regina, foram a Portugal e a brincadeira de alguns anos atrás virou realidade.

 

Saramago, acompanhado de sua mulher, Pilar, ciceroneou os brasileiros por Lisboa, conduzindo-os por um tour pelos locais descritos em cenas de "História do Cerco de Lisboa" (1987) e de "O Ano da Morte de Ricardo Reis" (1984).

 

De volta ao Brasil, Dias agradeceu a acolhida e a "redescoberta" de Lisboa. "Guardamos, na nossa memória e nos sentidos, o encanto de nossos encontros, de nossa linda caminhada, o aconchego de sua casa", escreveu. "A amizade recente entre os quatro peregrinos pelas ruas, ruelas, praças e muralhas lisboetas, já a pressentíamos na afinidade de leitores devotos..."

 

"Sinto o peso da falta dele, um dos escritores mais importantes da língua portuguesa de todos os tempos", diz com comoção o advogado após saber da morte do escritor. Ouça entrevista por telefone ao estadão.com.br.

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