Americanos levam o Leão de Ouro em Veneza

Richard Serra e Cy Twombly serão agraciados com o prêmio Leão de Ouro na categoria Mestres da Arte Contemporânea durante a festa de abertura da 49.ª edição da Bienal de Veneza, que será inaugurada esta noite com uma cerimônia que tem início às 17 horas. A escolha dos dois artistas não foi surpresa, já que ambos estão entre os grandes nomes da produção artística atual e foram convidados a participar com grande destaque da mostra geral, Plataforma da Humanidade, organizada pelo curador-geral, Harald Szeemann. Não deixa de ser curioso que ambos sejam de nacionalidade norte-americana.Cy Twombly, que exibe no Pavilhão Itália uma série de pinturas recentes, feitas este ano, nasceu em 1928. Com uma obra marcada pela gestualidade e pelo grafismo, Twombly procura, segundo Szeemann, "revitalizar a grande narração dos antigos mitos e dramas", resgatando uma visão clássica do mundo. Já Richard Serra, 11 anos mais novo que seu conterrâneo e que produziu para a mostra um dos trabalhos mais impactantes dessa edição - duas enormes e disformes espirais labirínticas, que se transformam num vertiginoso passeio -, é um dos maiores escultores da nossa época. Explorando materiais imponentes como o aço e o ferro, Serra dialoga com o espaço, provocando a percepção do público.O nome dos escolhidos para receberem os outros oito prêmios da Bienal (além da grande premiação de arte contemporânea serão distribuídos ainda um Leão de Ouro para a melhor participação nacional, três prêmios especiais para artistas que se destacaram e, finalmente, haverá quatro troféus de estímulo aos jovens produtores) será anunciado esta noite.Recorde - A primeira Bienal de Veneza do século 21 também é a maior edição de todos os tempos desse evento já centenário. Celebrando uma série de recordes númericos, como número de países participantes, ampliação do espaço expositivo, afluência de público no primeiro dia de vernissage - a mostra tem três dias de abertura apenas para convidados e jornalistas, mas as bilheterias só abrem no domingo -, presença massiva da imprensa internacional, o presidente da instituição, Paolo Baratta, procurou transmitir uma visão otimista do evento ao abrir a entrevista coletiva concedida ontem. Mas procurou ressaltar também que, além dos números, a Bienal atingiu seu objetivo, preservando um espírito de liberdade e autonomia e ampliando seu raio para além das artes visuais ao criar espaço para outras formas de expressão artística, como a dança, a música e a literatura. "Isso é a Bienal: trabalhar com diferentes artes, diferentes linguagens, com o mesmo espírito."Se os realizadores da mostra têm motivo de sobra para serem otimistas, é difícil afirmar que o público partilhará do mesmo sentimento. Pelo menos no que se refere ao mundo em que vive, se levarmos em consideração que os artistas refletem - mesmo que de maneira inconsciente - o mundo à sua volta. Afinal, predomina entre os trabalhos expostos uma visão certamente incômoda em relação ao gênero humano. Ao longo da exposição, vemos uma leitura cruelmente crítica, como a de Kem Lum, que expõe com violência e humor negro as mazelas da guerra, ou de Regina Galindo, que projeta sobre uma notícia de jornal intitulada "Trinta Violações em Apenas Dois Meses" a imagem de uma mulher nua, amarrada e vendada, até um certo desconforto incômodo, tenso e impotente.Curiosamente, essa tensão está no centro da obra de dois dos mais importantes videoartistas da atualidade: Gary Hill e Bill Viola. Enquanto o primeiro mostra flashes de um homem que grita em desespero e se joga contra a parede, sem que isso altere de nenhuma maneira a ordem das coisas, Viola recria no vídeo uma dramática composição pictórica, de tons barrocos, na qual retrata um grupo de cinco pessoas em absoluta angústia, mas que em vez de explodirem se movem tão lentamente que mal percebemos.A humanidade - tema escolhido pelo curador Harald Szeemann para ser colocado em destaque nesta mostra, numa visão talvez demasiado ampla -, segundo os artistas desta virada de século, não traz mais consigo um vigoroso apelo à mudança, ao progresso político ou existencial, representado na mostra pela arte simbólica de Joseph Beuys. Não é à toa que Szeemann escolheu como contraponto à arte contemporânea (no sentido literal do termo), a produção da década de 60, quando vivemos sob o impulso da última utopia, pelo menos do ponto de vista artístico. "Hoje, não temos mais esse tipo de revolução social. Não se evocam mais lugares e questões globais, mas cada um procura mostrar a essência de uma existência humana possível e individual", explica o curador.Isso não quer dizer que Szeemann não se sinta extremamente esperançoso com relação à nova geração, o que explica a presença maciça de artistas jovens em sua seleção e uma preocupação crescente em abrir espaço para as novas mídias, ou seja, para as videoinstalações. "Se uma bienal não mostra as preocupações artísticas de hoje, ela não atinge seu objetivo", afirma Szeemann, o único crítico do mundo a ter em seu currículo a realização de duas edições da Bienal de Veneza e de uma Documenta de Kassel.Foi sua escolha traçar um panorama o mais amplo possível sem nenhuma conceituação preconcebida (ele diz odiar o termo), estabelecendo conexões por meio do que chama de "dramaturgia da exposição". Essa amplitude explica como podem coabitar sob o mesmo projeto curatorial obras aparentemente tão distintas quanto a sedutora escultura de Ernesto Neto (o único brasileiro presente em "Plataforma da Humanidade" e que, além disso, também representa o Brasil em duas mostras na cidade italiana) e o vídeo de uma mulher se enforcando, feito por Ene-Liis Semper.Hiper-realismo - O mesmo individualismo está presente nas representações nacionais (cuja escolha cabe aos comissários e curadores dos países participantes). Talvez isso ocorra aí de forma um pouco mais tênue, mas não deixa de ser curiosa a enorme presença de representações hiper-realistas de seres humanos, mesmo que, às vezes, eles sejam representados como aliens - como no caso do Pavilhão de Israel.Não se pode dizer, no entanto, que essas questões norteiem a representação brasileira. É verdade que há um caráter inegavelmente orgânico na obra de Neto, que no pavilhão brasileiro criou um ambiente estranho e íntimo que atrai o espectador para seu interior de uma forma quase infantil. Mas tanto sua obra quanto a de Vik Muniz (da série intitulada Pictures of Colors) não parecem participar dessa crescente preocupação internacional em representar nossa angústia de final (ou começo) de século.

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