Americanos descobrem que existe Nelson Rodrigues

Alguns projetos em andamento nos Estados Unidos podem finalmente levar ao público americano o mundo dos cretinos fundamentais, dos cunhados canalhas, dos contínuos humilhados e dos castos obsessivos. Em reportagem distribuída ao longo de duas páginas do caderno Arts & Leisure, na edição de domingo, o jornal The New York Times apresenta Nelson Rodrigues como "o pai do teatro moderno brasileiro", e afirma que ele começa a abrir espaço no cenário internacional, "graças a seus jabs nas hipocrisias burguesas".Off Broadway, em 2001 - A previsão do jornal se apóia na intenção da atriz Amy Irving, casada com o cineasta brasileiro Bruno Barreto, de produzir uma montagem off Broadway da peça Toda Nudez Será Castigada, e de uma provável encenação de Dorotéia por Terry O´Reilly, diretor-artístico do grupo teatral Mabou Mines. "Deveríamos reconhecê-lo como um mestre contemporâneo, que provocou verdadeira revolução no teatro moderno", diz O´Reilly, um dos entrevistados de uma longa galeria que inclui Fernanda Montenegro, Arnaldo Jabor e Ruy Castro. "Ele foi um visionário à frente de outros autores europeus, antecipando-se muito ao teatro do absurdo de Ionesco, e misturando sonho, alucinação e realidade em peças como Vestido de Noiva." Amy Irving declarou ao New York Times que Nelson "é o equivalente heterossexual de Tennessee Williams, ao escrever sobre as mentiras e os segredos da classe média". Amy comenta também que não consegue entender por que ele não é até hoje reconhecido como um dos gigantes do teatro. Sem balangandãs - Embora tenha havido muitas montagens de suas peças no exterior, em países como a Alemanha, na França e na Polônia, Nelson Rodrigues ainda é pouco conhecido nos Estados Unidos. Uma das razões para isso é, provavelmente, o desinteresse pela produção de países periféricos. Além disso, Nelson Rodrigues contraria os clichês sobre paraísos tropicais, mais ao gosto do grande público. Um produtor teatral romeno que trouxe a São Paulo uma montagen de Titus Andronicus, para um festival organizado por Ruth Escobar, nos anos 90, pediu a amigos peças brasileiras. Ficou desiludido com o que recebeu. "Eu esperava alguma coisa sensual, engraçada. Me mandaram uns textos ultradepressivos de um tal de Nelson Rodrigues", queixou-se o produtor, num encontro sobre teatro organizado pela instituição americana The Salzburg Seminars, em março. É compreensível que um leitor com os olhos cheios de Carmen Miranda se retraia, espantado, ante o fantasma de Madame Clecy (de O Vestido de Noiva) ou diante de Arandir, acusado de homossexual ao acudir um atropelado (de O Beijo no Asfalto) , da cartomante Madame Crisálida (de A Falecida) e da prostituta Geni (de Toda Nudez Será Castigada). Mas não se pode afirmar que os temas moralistas de Nelson, impregnados de sotaque carioca e de sordidez suburbana, percam o fascínio quando representados em outras línguas. "Diversas montagens francesas fizeram muito sucesso", lembra o crítico Sábato Magaldi, um dos primeiros intelectuais a reconhecer o gênio de Nelson, em sua longa marginalidade. Magaldi lembra também a ótima aceitação que teve uma montagem de Antunes Filho em Nova York, com um grupo de língua espanhola, nos anos 80. Por isso, acredita-se que parte da ignorância sobre a obra de Nelson Rodrigues se explique pelas dificuldades de tradução para o inglês. Um pouco porque, como declara à reportagem do New York Times o diretor e ator Daniel Filho, "as falas de Nelson têm uma cadência muito particular, com xingamentos e maldições que não aparecem no texto, mas que estão lá, nas entrelinhas e na alma dos personagens". Pode haver, também, que as dificuldades residam no tradutor, mais do que nas peças. Jofre Rodrigues, um dos filhos de Nelson, e detentor dos direitos sobre sua obra, não autoriza ninguém, além dele próprio, a traduzir Nelson para a língua inglesa. E, a julgar pela lenta receptividade, talvez ele não seja a pessoa mais indicada para executar a tarefa.

Agencia Estado,

20 de dezembro de 2000 | 18h19

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