América refeita por Updike

No póstumo Higher Gossip, escritor repassa a arte e o cotidiano dos EUA

MICHIKO KAKUTANI , THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

04 de janeiro de 2012 | 03h10

Ao aceitar um prêmio da Associação Nacional de Críticos Literários, pela sua coletânea Bem Perto da Costa, publicada em 1983, John Updike modestamente se identificou como um "escritor freelancer que ocasionalmente escreve sobre livros, envolvendo nessa tarefa uma formação em Humanidades um pouco enferrujada por falta de uso, o conhecimento desigual de temas contemporâneos de um cidadão médio e o desejo infantil de um escritor de ficção de mergulhar, ele também, na fantasia".

É extraordinário não só o fato de John Updike ter se firmado como um dos mais proeminentes críticos atuais, mas também ter sido, por vocação, um grande romancista. Na verdade, o que é confirmado pela sua mais recente coleção de ensaios, Higher Gossip, John Updike foi essa criatura excepcional: um homem de letras versátil, um decatleta literário que trouxe para a sua crítica o conhecimento de um iniciado na técnica e no ofício; um crítico excelente que soube valorizar o talento, capaz de descrever o trabalho de um outro artista com um brilho vivo e pictorial; um observador entusiasta que, com seus ensaios consegue instilar uma sensação contagiante e pueril de assombro.

Organizada pelo editor Christopher Carduff nos anos seguintes à morte do autor, em 2009, Higher Gossip, sob certos aspectos é uma coleção mais dispersiva do que seus trabalhos anteriores no campo da não ficção. Ela carece dos ensaios literários profundamente refletidos (sobre mestres americanos como Hawthorne e Melville) e das críticas bem fundamentadas de contemporâneos famosos do autor (como Philip Roth e Saul Bellow) e os seus ensaios sobre arte parecem às vezes fragmentos que sobraram dos seus dois livros anteriores de crítica de arte, Apenas Olhando e Ainda Olhando.

Higher Gossip também está repleto de retalhos de trabalhos descartáveis: um tributo superficial, ligeiramente condescendente, a F. Scott Fitzgerald; algumas histórias menos importantes; e até um comentário sobre jogadores de beisebol feito para um livro decorativo de mesa. Tais ensaios confirmam a obsessão de Updike no sentido de transformar cada pensamento em palavras, cada observação em prosa: um testamento do seu amor pela escrita, mas também do seu aparente desejo de preservar tudo, bom ou não, no papel impresso. "Eu escreveria anúncios para desodorantes ou rótulos para embalagens de ketchup, se precisasse", ele disse à Paris Review em 1967.

Mas, ao mesmo tempo, Higher Gossip oferece ao leitor inúmeros prazeres palpáveis, enfatizando a capacidade mágica do autor de evocar mundos que outros artistas criaram com um simples brandir da sua varinha mágica - e com seu talento para fazer com que temas eruditos pareçam imediatos e reais.

Ele observa, por exemplo, que o pintor J.M.W. Turner, "ao fazer uma avaliação das coisas, não achava que os seres humanos tinham tanto valor" - aqueles que ele representa nos seus quadros encolhem diante da majestade e o terror da natureza - e persuasivamente argumenta que Turner "mostrou a outros artistas o caminho do futuro" com suas telas cada vez mais subjetivas e abstratas, "pinturas do nada" que prefigurariam o expressionismo abstrato do século seguinte.

Quanto a seus colegas escritores americanos, Updike liga os pontos entre suas experiências de vida e suas visões artísticas. Descreve a visão do universo de Kurt Vonnegut como "basicamente atroz, um vasto mar de crueldade e indiferença" - a herança de ter presenciado diretamente o bombardeio de Dresden durante a Segunda Guerra.

Ele descreve Raymond Carver como alguém que conseguiu tirar de "uma vida quase destroçada" - marcada pela penúria, embriaguez, por doenças - "histórias de uma integridade primorosa, de um brilho e serenidade que a mente assimila como se fosse uma perfeita chávena de porcelana", embora com frequência sejam retratos de vidas "que desceram abaixo do limiar de qualquer outra aspiração que não seja a sobrevivência cotidiana".

E, sobre John Cheever: "A alegria do mundo físico, sempre exaltada na sua ficção, e o triunfo da sua ascensão de jovem imigrante pobre para a condição de estrela literária de Nova York lhe permitiram ter muito mais do que o conforto necessário". Para ele, os personagens de Cheever também são "ansiosos, ambivalentes, à deriva", incapazes de "atingir o estoicismo cristalino, a coragem rebelde e resoluta de Hemingway".

Muitos dos ensaios desta coleção foram escritos durante as últimas duas décadas de vida de John Updike e muitos projetam uma atmosfera de nostalgia; a sensação do tempo passando, cenas que se dissipam aos poucos, alusões à mortalidade. Relembrando obras suas anteriores, o autor diz temer que a sua prosa tenha perdido "aquele impeto despreocupado, aquela vitalidade, o ar exuberante de uma certa intemperança". Ele fala sobre o ressentimento que escritores mais jovens podem sentir em relação "aos escribas grisalhos" que "continuam a consumir o oxigênio num espaço cada vez menor do mundo da palavra impressa".

Num dos mais envolventes artigos de Higher Gossip, ele faz uma reflexão sobre a história dos retratos americanos, observando como mudaram com o passar das décadas e sempre atenderam a dois impulsos: o criativo e o comemorativo. "O primeiro é a tentativa de captar com o abrir e fechar da objetiva alguma coisa vívida e ainda bela em suas cores e contornos; o segundo, mais realista num sentido mais amplo, é a tentativa de deter o tempo." Naturalmente, foi isso que o próprio Updike fez ao longo de uma carreira de cinco décadas: abriu uma janela para observarmos outras vidas se revelando nos calmos anos 50, nas revoluções dos anos 60 e 70 e no avanço em direção à virada do milênio - vislumbres instantâneos da vida rotineira em toda a sua gloria mundana e caleidoscópica./ TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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