Amém e saravá meu padim

A espiritualidade do brasileiro é intrincada. Muitas forças pairam sobre nós, combatem e seduzem a razão das nossas almas.

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2010 | 00h00

Aportou nas praias uma Companhia de Jesus, que chegou para catequizar os "selvagens", missão árdua que tirou o sono de Anchieta. Que depois de vestir os índios e fazê-los plantar, ajoelhar e rezar, descobriu que continuavam seguindo o próprio juízo.

Apenas para agradar aos colonizadores e pararem de apanhar obedeciam as regras daquele culto "exótico", organizado em torno de um pobre homem preso numa cruz.

Anchieta no fim da vida chegou a escrever que sua missão fracassara, e que só a ferro e brasa seria possível a conversão.

Vieram os africanos com um culto sofisticado, elaborado e orixás que remetem a arquétipos - milênios de lendas faladas em torno de fogueiras, capazes de definir detalhes da nossa psique.

Para aplacar o furor da Inquisição, candomblé virou umbanda, Orixás se transvestiram como santos, o sincretismo foi adotado em todas os cantos e terreiros.

Iemanjá mora no coração de cada brasileiro. Círio de Nazaré arrasta milhões em torno de uma corda. Padim Padre Cícero é celebrado de norte a sul. Uma iconografia própria se elevou.

Chegaram os italianos para tocar as plantações sem escravos e uma indústria que nascia. Na bagagem, manuais anarquistas e marxistas, um saudável paradoxo, já que conviveram intimamente com o poder na Igreja.

Meus avós italianos me assustavam quando cantavam, na mesa, ainda no primo piatto: "Avanti o popolo alla riscossa, bandiera rossa trionferà. Per gli sfruttati immensa schiera, la pura innanzi rossa bandiera, o proletari alla riscossa?" Pois terminavam pregando "Il santo papa sará inforcato!", enquanto eu era catequizado na escola.

Pobre Pio XII, papa frágil, complexo, carinha de santo, que teve uma relação controversa com o nazi-fascismo.

No mais, minha avó Olga contava que, quando pequena, fora assediada por um padre, que a sentava no colo com segundas intenções.

Para apimentar esta feijoada espiritual, cada brasileiro tem um signo e ascendente - a lua rege paralelamente -, um orixá, sua visão do Evangelho, a crença pessoal, aceitando ou não os mandos do Vaticano, eventualmente comparecendo a pajelanças ou a rituais criados pelos povos da floresta, como o Daime.

E se as ordens de cima são anacrônicas e proíbem o uso da camisinha, o casamento gay e o aborto, olhamos de lado.

Aqui nasceu a Teologia da Libertação, uma busca da essência do Cristianismo: luta contra a injustiça e pela igualdade social. Combatida por João Paulo II, aquele que querem transformar em santo, anticomunista ferrenho.

A religiosidade do brasileiro é tão complexa, única, independente e criativa, que fascinou de Lévi-Strauss, Darwin a Sartre.

E quando um gringo desembarca por essas terras, não está atrás apenas de Havaianas legítimas. Quer também vibrar com os tambores e a riqueza do nosso "paganismo".

***

Quando eu tinha 14 anos e passava umas férias forçadas na fazenda do meu avô, em Eldorado Paulista, me recuperando de uma caxumba, recebia diariamente a visita de Batico, filho de um vaqueiro.

Estavam apenas eu e minha avó, na casa que costumava lotar de primos e tios no verão.

Numa manhã, ele chegou eufórico com mais dois moleques. Boatos diziam que um saci fora visto no pasto à beira do Rio Ribeira. Não era a primeira vez que a entidade rondava a fazenda.

Não pensamos duas vezes. Fomos até a cocheira, encilhamos quatro cavalos e galopamos até o pasto. O capim estava alto, nutrido pela umidade e chuvas do verão.

Percorremos as praias de areia do rio, em busca de pegadas. Subimos um pequeno monte, para ter uma visão melhor. Nada. Me desesperei. Eu seria o único ser daquele vale a não ver um saci?!

Buscamos em cada canto, atrás de árvores, pulamos cercas. Até eles apontarem: "Olha lá!"

E vi o barrete vermelho em sua cabecinha. Parecia assustado. Ele levantava, nos encarava e corria, cercado pelo capim alto. Assustado, mas com um sorriso largo, como um sujeito em dúvida das nossas intenções.

Se abaixava e aparecia noutro canto. E sorria. Um brincalhão. Nos examinava como estranhos, com interesse. Mas priorizava a sua segurança e a camuflagem.

Ficamos sobre os cavalos, sem nos mover, para não assustá-lo. Encantados pela rapidez com que sumia na relva e reaparecia no mato. Até sumir de vez.

Voltei para a sede com um sorriso maior do que o rosto. Eu vi. E foi fascinante.

***

Contei esta experiência para o José Mojica Marins, no seu programa de entrevistas do Canal Brasil, quando, na primeira pergunta, quis saber se eu vira algo sobrenatural na vida. Ele quase caiu da poltrona. E se emocionou, e a todos diz que foi a entrevista mais surpreendente que já fez.

Passei a receber e-mails de criadores de sacis. E entrei, sim, na campanha para transformá-lo no símbolo da Copa de 2014 ou da Olimpíada de 2016, ambas no Brasil.

Muitos perguntam se um moleque com um cachimbo na boca seria escolhido mascote oficial pela liga dos defensores do politicamente correto. Bem, meu saci não tinha cachimbo algum. Portanto...

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.