Paulo Pinto/Estadão
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Amélia se entrega

No limite da morte, teria esbarrado na vida. O prazer, afinal, pode renovar a esperança

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

16 de janeiro de 2022 | 03h00

Amélia era uma mulher exemplar. Havia cuidado da mãe e do pai por muitos anos e de forma generosa. Virou modelo para gente que queria falar da importância de amparo a pais idosos. Acabou nunca se casando. Voz leve, sempre sorrindo, cozinheira maravilhosa: tocava uma vida regrada, sem luxos. Em todo aniversário, trazia um pequeno presente de sua lavra: das bem-cuidadas embalagens surgiam brevidades inesquecíveis ou sua apreciadíssima geleia de laranja. O pudim da Amélia era saudado com palmas ao chegar à mesa. Educada, louvada pela família, adepta do terço diário, era sempre adequada. Uma sobrinha mais crítica era uma voz que destoava do coro: afirmava que faltava na tia Amélia um pouco de vida, um toque de humanidade, uma rebeldia talvez. A jovem era silenciada por todos os mais velhos: “Quem dera que o mundo tivesse mais Amélias”. Maria Clara era dura, ainda que gostasse da parente, ressentia-se da excessiva cordialidade. “Perfeita demais, asséptica como uma UTI”, dizia entredentes. 

A prestativa Amélia não se ofendeu ao saber do comentário. Era cordata, equilibrada e previsível... Era uma mulher confiável para o condomínio, para a família e para a igreja. Era, em si, um templo de mármore funcional e – Maria Clara tinha alguma razão – um pouco fria.

A vida é dinâmica e cheia de surpresas. Atendendo ao convite da irmã que possuía casa no litoral, Amélia aceitou passar o feriado de ano-novo 2021/2022. Ao chegar, fez o que sempre se esperava dela: frases gentis, um bolo maravilhoso à tarde e o famoso chazinho da tia Amélia, quando a noite se aproximava. “Ah, se houvesse mais Amélias”..., bradou, novamente, o coro familiar. 

Na tarde seguinte, primeiro dia do ano, todos ainda se recuperavam da festa. Nossa personagem nunca bebia e tinha acordado na hora de sempre. De maiô, decidira fazer algo quase esquecido no escaninho da memória: nadar. A praia era tranquila, a água estava quente, pareceu uma quase aventura na sempre previsível vida que ela levava. Entrou feliz na água e nadou com uma felicidade pouco usual. Chegou a soltar gritinhos de satisfação. Fazia anos que não se entregava à água ou a qualquer outra coisa. Foi se afastando da areia como uma sereia recém-convertida ao reino aquático. Era, exatamente, o que Freud chamava de sentimento oceânico...

Amélia ousou em demasia. Fazia tantos anos, tantos. Sim, e o tempo, sempre ele, tem seus pedágios. As pernas fraquejaram. A escassez de prática cobrava seu preço. A ousadia, tão rara, parecia que começava a desafiar a existência. Amélia perdeu forças. Sua vida toda prudente perigava por uma única decisão destemida. Tentava se acalmar, mas o ar lhe faltava. O pânico crescia. Chegou o desespero e, religiosa, começou a gritar por Deus e por auxílio.

O resgate veio, inesperado como um raio em dia de céu azul. O helicóptero dos bombeiros fazia uma ronda de ano-novo. Era um dia de muitos afogados pelo excesso de bebidas. Vendo o desespero visível da senhora no mar, o aparelho chegou mais perto e um bombeiro saltou com uma boia.

O salvador era um rapaz moreno e forte. Foi fácil agarrar Amélia franzina. Ela, apesar do susto, já percebeu que tinha recebido um sursis do céu para um tempo a mais no mundo. Entregou-se ao prolongado abraço do seu bombeiro e aninhou-se entre seus braços. Ele estava quente e era jovem. Com pés de pato e habilidade, o jovem avançou abraçado a Amélia.

Dizem que a falta de oxigênio pode produzir um aumento do estímulo sexual. Talvez o alívio contivesse chave na entrega por agonia. Amélia foi invadida de um prazer que nunca havia sentido. Começou a arfar e se agitava um pouco. O rapaz forte dizia: “Calma, senhora, está tudo bem agora”. Sim, ela sabia que tudo estava bem, muito bem, como nunca antes estivera. Sentia-se feliz, estava segura e um pouco envergonhada. Amélia tinha experimentado um prazer inédito, profundo e transformador. Faltando alguns metros para chegar ao solo seguro, ela foi invadida por um tremor profundo, generalizado e um som de satisfação intenso. Amélia, enfim, tinha se entregado à vida.

O barulho do helicóptero, o vozerio e os alertas dados à família inundaram a praia de curiosos, amigos e parentes. Vendo que Amélia chegava sorridente nos braços do bombeiro, todos aplaudiram. “Que alívio!” “Que susto!” “Aleluia!” gritavam os parentes frequentadores de uma comunidade pentecostal. 

A tia sobrevivente tomou um longo banho e foi recebida com nova salva de palmas na sala. A pacata senhora havia galvanizado a casa com sua aventura. Somente a sobrinha crítica, aguda, percebeu que o olhar de Amélia mudara. Ela estava diferente. Amélia parecia mais humana. A tia piscou para a sobrinha com certa cumplicidade. Agradeceu a preocupação. Disse que, no dia seguinte, faria uns doces para o jovem bombeiro que a resgatara. Deu uma nova e discretíssima piscada para Maria Clara. No limite da morte, a boa Amélia parecia ter esbarrado na vida. O prazer, afinal, pode renovar a esperança.

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