Ambiguidade do violino

A alemã Isabelle Faust, acompanhada por Claudio Abbado, grava versão fundamental do concerto de Alban Berg

JOÃO MARCOS COELHO , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2012 | 03h07

"A Bela Adormecida" - este é o apelido do violino Stradivarius de 1704, no qual Isabelle Faust toca desde 2004. O precioso instrumento, que vale milhões de dólares, ficou ignorado numa das dezenas de quartos de um castelo até o final do século 19, quando, encontrado por uma baronesa, continuou prisioneiro, pois passou a viver num cofre de banco. Lá permaneceu até 1990, quando foi cedido em comodato a um violinista de Zurique, que finalmente colocou-o em ação. Apaixonada pelo som do instrumento, Isabelle tomou posse dele em 2004, graças a um banco alemão, que o comprou por alguns milhões de euros.

De igual modo, tal qual uma bela adormecida, possivelmente só agora, em pleno 2012, quase oitenta anos depois de sua estreia em 1936, o Concerto para Violino do compositor austríaco Alban Berg (1885-1935) ressurge como foi concebido: um autêntico concerto dramático, numa espetacular interpretação de Isabelle Faust e a Orquestra Mozart, regida por Claudio Abbado em CD recém-lançado pela Harmonia Mundi. Como o instrumento, o concerto soa tão novo que parece despertar de um longo e quase secular sono.

Superlativos são em geral injustos, para o bem e para o mal. Mas prefiro correr o risco. Ninguém conseguiu, até hoje, construir um discurso orquestral tão atmosférico e ambíguo quanto Abbado neste concerto feito de dois movimentos que embutem dois andamentos diferentes cada. Pela primeira vez, sente-se de modo claro a angustiante - e genial - criatividade de Berg ao lidar simultaneamente com sua veia lírica tonal e o método dodecafônico formulado por seu mestre Schoenberg. Uma incrível ambiguidade que me fez lembrar de um conceito-chave da dialética do filósofo alemão Hegel, o de "aufhebung", ou seja, superar e instaurar o novo e ao mesmo tempo preservar o antigo. Os primeiros compassos do Andante Scherzo inicial são miraculosos: as 3 clarinetas, os 3 clarones e a harpa soam fantasmagóricos enquanto emerge o violino solista tocando só nas cordas soltas, como se estivesse testando a afinação. Só no compasso 15 o violino emite com clareza a série de doze sons que é o núcleo do concerto: e ela é tonal, pois é um grande arco ascendente, do sol grave, em terças maiores e menores, formando sucessivos acordes convencionais, como sol menor e ré maior. As quatro notas finais são quatro tons completos, idênticos ao do coral de Bach que Berg usará no segundo movimento.

A regência extremamente sutil de Abbado não gosta de grandes contrastes; em vez disso, instaura uma atmosfera igualmente ambígua, onde o violino ora emerge da massa orquestral, ora nela mergulha. Sempre com meias-tintas, sem exageros ou rasgos demagógicos.

Berg foi o primeiro a deglutir a música tonal e o dodecafonismo de modo extremamente pessoal. Há comentadores que acentuam nesta obra o seu momento mais "mahleriano". Pois é justamente essa característica que o torna tão "fácil" de ouvir e ao mesmo tempo tão denso do ponto de vista construtivo. O compositor trabalhava freneticamente em sua ópera Lulu quando recebeu, em 1935, a encomenda de um concerto do violinista norte-americano Louis Krastner. Berg aceitou a atraente ($$$) encomenda, mas só engatou mesmo na composição movido por um acontecimento trágico: Manon Gropius, filha de Alma Mahler e do arquiteto Walter Gropius. A adolescente, que tinha paralisia infantil, morrera aos 18 anos. Berg nutria por ela grande afeição. Deixou Lulu de lado e por quatro meses trabalhou intensamente no concerto. Colocou a dedicatória "à memória de um anjo". Foi sua derradeira obra, pois morreu apenas oito meses depois de Manon.

A tentação de ler o concerto como seu réquiem pessoal é enorme. Boa parte, aliás, da obra de Alban Berg é vítima deste tipo de leitura, que não é injustificada. Ao contrário. Berg espalhava sinais, alusões e citações secretas por suas obras. Seu segundo quarteto de cordas, Suíte Lírica, de 1926, é praticamente uma confissão criptografada do adultério com Anna Fuchs, fato espantoso porque ele sempre pregou publicamente, e numa copiosa correspondência, o estado permanente de paixão por Helena, sua esposa oficial. Esta, aliás, guardou a sete chaves um manuscrito cheio de indicações amorosas que Berg deu de presente a Anna Fuchs.

No concerto para violino, o "programa" oficial é público. Mas Berg retrata, neste concerto dramático, sua vida, morte e transfiguração, espelhando-se na trajetória trágica de Manon Gropius. Estamos longe, bem longe de uma música rasa de programa. É seu momento mahlerianamente épico. E possivelmente um dos mais belos concertos já escritos para violino.

O enfoque de Isabelle Faust é refinado. Usa com rigor e economia o vibrato, a afinação é estupenda; mas, acima de tudo, sua "bela adormecida" dialoga com elegância e intenso pathos com a orquestra. Claudio Abbado, de seu lado, traz o herói dramático-violino solista para o interior do quase sempre delicados sons sinfônicos. O efetivo orquestral, aliás, é enorme, mas raras vezes é utilizado a toda força.

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