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Lúcia Guimarães
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Amazing Mandioca

A nova tendência para terminar namoro é ghosting. Ghost quer dizer fantasma e o verbo to ghost quer dizer assombrar. Mas, quando a escultural Charlize Theron parou de responder telefonemas e SMS’s do, digamos, intenso Sean Penn, quando o casal estava no Festival de Cannes, ela estava terminando o noivado via ghosting. Ou seja, deu um baita gelo no ator. O problema de ghosting é você deixar pendências que levem o esnobado a dar o troco. “Esqueci minha bolsa favorita na sua casa, posso ir buscar?” Silêncio.

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

29 de junho de 2015 | 02h00

Bom saber que Barack Obama não guarda rancor. Ficamos conhecendo mais detalhes sobre a psique de Obama porque, há pouco mais de uma semana, ele gravou um podcast meio confessional numa garagem perto de Los Angeles. Então, quando a Dilma não apareceu num raro jantar de Estado oferecido pelo presidente que prefere uma quadra de basquete a qualquer convescote, o No-Drama Obama não levou para o lado pessoal. Mesmo por que, no mesmo período de 2013, uma bronca muito mais poderosa partiu de Angela Merkel. Barack espionou Dilma e Angela e François e... a fila é longa. Ele não perdeu o sono com o papel de vilão. Falamos de um homem que, antes dos 9 anos, foi apedrejado por crianças indonésias gritando epítetos raciais, na ilha de Java, e cuja mãe, reagiu: “Ele já está acostumado.” 

É difícil imaginar que um especialista em Direito Constitucional como este presidente sinta alegria em endossar o lado das sombras que é parte integral do poder Executivo americano. Mas ele sabe que Angela e François não são exatamente virgens em matéria de espionagem. E, a países sem o mesmo aparato de inteligência ou influência global, diante de contrariedades, resta o ghosting. Ou a indignação. Ou o poder de fazer uma grossura com um embaixador indonésio que já está no palácio para apresentar suas credenciais.

Pois é, Dilma teria tido uma recepção em Washington, em 2013, que faria o marqueteiro João Santana dar cambalhotas de alegria com vistas a 2014 – não as cambalhotas retóricas e a invencionice que confirmam seu desprezo pelo Q.I. dos brasileiros. A visita de Estado em 2013 era sob medida para um daqueles momentos tipo “óia nós no mundo” – notei que a presidente, proprietária de vários imóveis na capital gaúcha, escorrega em mineirices quando quer soar popular. Obama também migra entre sotaques, soa mais afro, dependendo da companhia. 

Com as revelações ultrajantes de Edward Snowden sobre a espionagem descarada e francamente previsível, Dilma cancelou a viagem de 2013 por não ter recebido “explicações satisfatórias” do governo Obama. É uma presidente que se satisfez e repetiu a primeira teoria conspiratória sobre o assassinato de 299 civis a bordo de um voo comercial sobre a Ucrânia, em julho passado.

Como detesta sair do País e fazer um social com homens que não param de falar mal dela pelas costas num tom da mais primitiva misoginia, neste ponto, Dilma empata com Obama. Prefere uma ciclovia a fingir que se interessa pelo que diz Joe Biden.

A Dilma que teria sido recebida com uma salva de 21 tiros, parte do protocolo da visita de Estado à americana, para em seguida ser homenageada com um banquete black-tie, era uma presidente enfrentando protestos de rua, mas a caminho da reeleição. A Dilma, que amanhã faz uma visita de governo (e não de Estado) à Casa Branca, coleciona tantas más notícias que deu para comemorar a mandioca e brande uma bola de folha de bananeira como se estivesse apresentando ao mundo a primeira impressora 3D. 

Quando Obama ia tirar o fraque do armário em 2013, tinha despencado em pesquisas de opinião sobre sua política externa, especialmente por causa da guerra na Síria, quando ela voltou atrás sobre uma intervenção militar. Estava a caminho de uma derrota legislativa que deu o controle do Senado à oposição republicana. O anfitrião de amanhã está festejando uma vitória após a outra, inclusive com a ajuda da direita que o apedreja com epítetos racistas todo dia na internet e o trata como um extremista islâmico no canal de notícias de Rupert Murdoch. Obamacare, casamento gay, autoridade para negociar acordo de livre comércio Trans-Pacífico, o homem está numa boa fase.

Anfitrião e convidada têm em comum o fato de que não vão mais disputar outras eleições. A Dilma de 2015 mal pode visitar a família na cidade onde deve morar quando deixar a Presidência. O Obama de 2015 está cheio de planos para a vida pós-Casa Branca. Acaba de levantar um punhado de milhões para plantar sua fundação no South Side de Chicago, onde cresceu Michelle. Pilotou a recuperação econômica dos Estados Unidos em contraste com líderes europeus paralisados por austeridade. 

“Acho que vou cantar,” disse Obama a uma assessora, na sexta-feira, a bordo do Air Force One. Viajava a Charleston para discursar no funeral das vítimas do massacre na igreja afro-americana. No final, entoou o hino religioso Amazing Grace (Graça Incrível) puxando a congregação no canto.

O primeiro presidente negro e a primeira mulher presidente e ex-guerrilheira têm biografias incríveis. Não diria o mesmo sobre os alvos de suas graças.

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