JB Neto/AE
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Amáveis memórias

Compositor e produtor Gui Amabis reúne Criolo, Céu, Lucas Santtana e Tulipa Ruiz em CD solo

Lucas Nobile, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2011 | 00h00

A prosa poética dá nós e às vezes engana. Interprete da maneira que quiser o que, em 2008, Mia Couto vaticinou: "O viver é um verbo sem passado." O produtor, compositor, cantor e multi-instrumentista Gui Amabis discorda solenemente das palavras do escritor moçambicano. "Não existe vida sem passado. O ser humano é um bicho carente, sem passado não iam sobrar dedos pra ele chupar", diz.

Aos 34 anos, o paulistano - que há tempos vinha trabalhando em trilhas para cinema e televisão, no Brasil e no exterior, além de produzir discos relevantes no cenário nacional - lança seu primeiro disco solo, o autobiográfico Memórias Luso/Africanas, no qual enreda de poesia, música e lirismo a história de seus familiares e antepassados.

Acostumado desde pequeno a escutar os "causos" de família que o levavam a desvendar os caminhos de sua árvore genealógica, Amabis começou a conceber o álbum em 2007. "Eu ouvia muitas histórias da minha avó (Firmina dos Prazeres Machado, a quem o disco é dedicado), que estava com Alzheimer. Fiquei com aquilo na cabeça, de como uma pessoa pode ter tantas histórias e depois esquecê-las, e comecei a escrever algumas letras", diz Amabis.

A música foi herdada por diversos caminhos. De parentesco, a mãe escutava muitas canções em casa; o pai, representante do lado africano da família (desde o patriarca e bisavô Cândido Amabis, que teria vindo do Sudão), quase não botava discos para tocar, mas assobiava a torto e a direito; e o irmão, Rica Amabis, também há tempos envolvido em projetos bem-sucedidos, como o Instituto e o 3 na Massa.

Além-família, a música entrou pela cabeça por meio de três nomes: Bob Marley, Mulatu Astatke e Levy Miranda, dono da escola em que o Amabis estudou teoria por quatro anos. Sem esquecer do baixista Antonio Pinto, que abriu as portas para que ele enveredasse na seara das trilhas. "Trabalhar com trilhas me ajudou muito no sentido dos arranjos e de aprender a trabalhar a música de forma imagética", diz.

Um time de camisas 10. Competência e narcisismo não combinam. É comum um sujeito ser do métier e quando decide lançar seu primeiro disco assumir-se um frontman intencionado em roubar todos os holofotes para si. Definitivamente, não é o caso de Gui Amabis. Em seu álbum solo ele aparece como protagonista nas composições (assinando todas as músicas e seis das letras das dez faixas) e ao assumir diversos instrumentos e programações, sem exibicionismos.

O compositor se sai muito bem e sincero nos vocais, como no tema de abertura Dois Inimigos, e ainda ganha o reforço nos microfones de nomes de peso. Criolo canta duas faixas estrondosas, Orquídea Ruiva (com voz feminina de Sinhá) e Para Mulatu, cujas letras ele mesmo assina. A família volta a aparecer com Céu (esposa de Gui) cantando a mareada Swell e a portuguesa Doce Demora, em homenagem à filha Rosa. Tulipa Ruiz apaga qualquer dúvida em relação a seu potencial, ao interpretar com sua bela voz Sal e Amor e Ao Mar. Lucas Santtana dá sua contribuição com versos e canto na densa O Deus Que Devasta, mas Também Cura. Tiganá se impõe com o belíssimo timbre e a negritude de sua voz em Imigrantes.

No instrumental, um elenco que dispensa apresentações: Regis Damasceno (guitarra), Samuel Fraga e Curumim (bateria), Dengue (baixo elétrico), Marcelo Cabral (baixo acústico), Rodrigo Campos (violão), Thiago França (sax tenor), Maurício Alves (percussão) e Lucas Santtana (voltando à flauta, que andava meio de lado para ele).

AGENDA SOLO

13/5: Disco gratuito na internet.

13/6: Álbum físico nas lojas.

22 e 23/6: Shows na Sala

Crisantempo (Rua Fidalga, 521)

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