Amargo rito de passagem

Em A Brincadeira Favorita, Leonard Cohen retrata as ilusões perdidas da juventude

Moacir Amâncio, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2012 | 03h10

Ocanadense Leonard Cohen fez o contrário daqueles cantores e compositores que só publicam livros depois de conhecidos. Primeiro ele foi escritor, e com talento, como se pode verificar em A Brincadeira Favorita, de 1963, quando estava na casa dos 29 anos de idade, somente depois dos 30 ele se transformaria no Leonard Cohen que conhecemos. O romance fala de adolescentes em Montreal. Passado o deslumbramento juvenil, a maioria não parece capaz de encarar o fato de que foram constatadas as mesmas "verdades" já conhecidas pelos pais e avós sem ninguém ter aprendido nada com isso. Acabou? Não - o que conta é a narrativa enxuta, poética, divertida, pungente.

Tudo gira em torno de Lawrence, rebento da camada afluente da comunidade judaica e suas experiências, sobretudo sexuais, desde os brinquedos eróticos infantis até a fase adulta. Ele se torna escritor, vai a Nova York, onde arranja outra namorada, apaixona-se mas retorna a Montreal para se livrar da mãe horrorosa e do grande amigo Kranz, com quem sai na mão, pois este não aceita o pedido de demissão de Lawrence, num acampamento de férias para crianças judias. Acontece que o rapaz está decepcionado com o mundo de fachada protagonizado também pela mãe.

Lawrence revolta-se, mas não sabe direito o que fazer com essa revolta. Torna-se meio vagabundo. Acaba aceitando o cargo de monitor do acampamento de férias. É lá que encontra a melhor personagem secundária do romance, o pequeno Martin, meio pirado e livre na sua loucura. Age e pensa como quer, e isso fascina Lawrence, que passa a estimá-lo, pois ele vai muito além do que ousaria. Martin é uma alegoria, espécie de anjo a quem pouco importa estar vivo ou morto. O menino acaba esmagado por um trator, mas nem a mãe, que se envergonhava dele, sente muito, pois não via a hora de se livrar do encosto. Cohen narra isso sem melodramas.

Depois do tal episódio terrível, de romper com a namorada nova-iorquina e do reencontro com amiguinhas de infância para algum caso, Lawrence percebe que as experiências se esgotam nelas mesmas. Como o sexo, isso está claro, não era a melhor das brincadeiras, ele recorre à memória. Lembra-se então da brincadeira favorita: garotos e garotas se faziam atirar na neve fofa para deixar impressas as suas imagens, a serem apagadas rapidamente. Um ceticismo tingido de lirismo e ironia. Parece antigo, mas ainda funciona. 

MOACIR AMÂNCIO É PROFESSOR DE LITERATURA HEBRAICA NA USP, AUTOR DE ATA (RECORD), YONA, O ANDRÓGINO - NOTAS SOBRE POESIA, CABALA (NANKIN/EDUSP)

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