Amantes da noite, por Ray

Em sua estreia, autor já diz a que vem no trágico Amarga Esperança

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2012 | 03h11

Já se passaram mais de 60 anos desde que Nicholas Ray, em sua estreia na direção, realizou Amarga Esperança, em 1949. O filme baseia-se no livro Thieves Like Us, de Edward Anderson, que Robert Altman adaptou em 1974. Conta a história de um casal de fugitivos da polícia, no quadro da depressão econômica dos anos 1930.

Jean-Luc Godard dizia que ele era o Rimbaud, o poeta maldito, de Hollywood. E Godard, de novo, criou uma definição que ficou célebre. Dizia que ninguém criava os personagens no plano interior com mais intensidade do que Ray. Anthony Mann fazia o mesmo no plano externo, ao filmar os confrontos de seus heróis de westerns com o mundo. Se fosse possível juntar os dois, o resultado seria o maior diretor do cinema.

François Truffaut, outro admirador, via em Ray o rebelde que colocou na tela, com James Dean, a juventude transviada. Os jovens de Amarga Esperança já antecipam a fragilidade e a neurose. Na trama, três detentos fogem de uma prisão no Mississippi, entre eles Bowie, interpretado por Farley Granger. Ele quer provar sua inocência e recomeçar a vida com a garota (Cathy O'Donnell) que encontra num abrigo, mas é caçado pelos colegas e pela polícia.

Quando Arthur Penn dirigiu Bonnie & Clyde, em 1967, os críticos lembraram-se de Ray e sua Amarga Esperança. Era como se Bowie e Cathy antecipassem Clyde Barrow e Bonnie Parker, e no mesmo período que lançou milhões de americanos no desemprego, na criminalidade e na vida errante. Penn fez do filme dele um clássico renovado de gângsteres. Ray ostenta a fama de ter sido um dos criadores do noir. Em 1949, este estilo de cinema já vinha sendo gestado ao longo da década, através de obras seminais como O Falcão Maltês, de John Huston, e À Beira do Abismo, de Howard Hawks. Ray não segue o figurino noir dos policiais e suas mulheres fatais, mas existem elementos 'negros' no visual e no tratamento dos personagens.

De certa forma, todo Ray já está no filme. Quase não há espaço para a ternura na caçada. É substituída pela violência dos sentimentos. O começo é inusitado. Ray mostra rápidas cenas dos dois amantes, acompanhadas de uma legenda - "Este rapaz e a garota ainda não foram realmente apresentados ao mundo." O filme faz essa apresentação e, como um lugar opressivo, o mundo vai atropelar as esperanças de felicidade do casal. O clima não é o mesmo, mas Godard certamente pensou em Ray em sua estreia, com Acossado, dez anos mais tarde. O roteiro, como sabem os cinéfilos, era de Truffaut. Outro casal de amantes, outro (anti)herói na corrida, perseguido até perder o fôlego.

Embora o livro de Edward Anderson se chame Ladrões como Nós - a adaptação de Altman foi lançada no Brasil como Renegados até a Última Rajada -, a versão de Ray tem outro título original. They Live by Night. Eles vivem à noite. Quase toda a fuga do casal ocorre à noite, e nas raras cenas de dia eles ficam ainda mais expostos em sua fragilidade. Jean Tulard, no Dicionário de Cinema, define Ray como autor lírico, e o lirismo do seu cinema é o do homem ferido. Esse ferimento não é necessariamente físico, embora às vezes seja. É moral, psicológico. Expressa-se pelos olhares, pelos gestos crispados.

O que é o cinema?, perguntava-se o crítico francês André Bazin. O cinema é a melodia do olhar, dizia Ray, e sua definição ressoou em toda uma geração do cinema da França, a chamada de nouvelle vague, nova onda, agrupada em torno da revista Cahiers du Cinéma. Uma frase, dita por um personagem a Bowie, persegue o espectador - "Não quero lhe dar esperanças, porque elas não existem." Ray pode ter feito filmes melhores, mas este já tem a sua cara.

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