Amante no jogo de luz e sombra

Encenação do grupo Club Noir mantém com o espectador uma relação insolente e desafiadora

O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2012 | 06h40

Em Amante, texto e direção de sua autoria, livremente adaptada de A Amante Inglesa, de Marguerite Duras, o diretor Roberto Alvim busca recriar os espaços mentais como Fernando Pessoa o descreveu: "Toda vida é um movimento de penumbra. Vivemos num lusco-fusco da consciência". O enredo apresenta uma mulher que teria matado e esquartejado a própria empregada, conversas esparsas dela com o marido e anotações do escrivão policial.

Duras não quis uma novela policial, mas montar lacunas para o leitor preencher ou se permitir divagações. Uma delas é sobre a verdade e a mentira. A suposta criminosa pode ser um caso de esquizofrenia delirante a partir da total carência de afeto e comunicação com o companheiro e o mundo externo. O assassinato - houve um no interior da França - pode ser obra de outra pessoa, mas ela o assume para existir em seu meio, chamar a atenção. É uma das possibilidades lançadas por Duras e Roberto Alvim também declarou seu desejo de dar autonomia de percepção ao espectador, caminhando assim com seu colega e contemporâneo carioca Pedro Brício, autor de Breu, ainda em cartaz.

Ambos trabalham na linha de risco de diminuir o que sempre se considerou fundamental, praticamente inegociável, em teatro: o rosto e o olhar dos intérpretes. Há milênios, os gregos calculavam as representações nos seus anfiteatros para que terminassem ao pôr do sol. O uso eventual de máscaras (também no teatro oriental) não anulava o poder de comunicação dos interpretes. No caso de Alvin e seu grupo chamado Club Noir, essa estética, quando radicalizada, priva o espectador de toda a extensão do talento de Juliana Galdino, principal atriz da companhia. O procedimento tem equivalentes em fotografia. Se Henri Cartier-Bresson produziu fotos em preto e branco em que há claridade quente nas expressões, um talento de outra geração, o lituano Antana Sutkus (1939) reforça o tom cinza do clima áspero do Báltico. Ignora a poesia das ruas segundo Bresson e faz ainda alusão ao cotidiano opaco no regime comunista em vigor.

É o jogo de luz e sombra que vem da pintura desde o chiaroscuro de Leonardo da Vinci, passando por Georges de La Tour (1593-1652) e seus admiráveis efeitos com o uso de velas em obras próximas, talvez, a Alvin. Como ambientação geral, os trabalhos do Club Noir sugerem a tela Paisagem de Inverno, de Maurice de Vlaminck (1876-1958), do acervo do Masp, ou as misteriosas gravuras do brasileiro Osvaldo Goeldi (1895-1961). Nelas estão flagrantes noturnos em becos onde transeuntes sem face parecem se esquivar da lua vermelha.

O provável excesso de citações aqui feito é um esforço cauteloso em traduzir o que o encenador expôs com algum hermetismo em entrevista recente: "Os discursos de Duras não se localizam no âmbito da comunicação unívoca, de uma só interpretação possível, mas na instância polissêmica da poesia, em que vários sentidos são aceitos. Sua obra instaura o enigma permanente". Merece atenção um fato artístico que crê incitar a autonomia de percepção ao espectador durante um curto solo teatral. São 40 minutos fragmentados, com falas sincopadas de Juliana com um tremor de voz de experiências e contextos anteriores, seu choro silencioso e a máscara dramática poderosa; a narrativa de Bruno Ribeiro em um desempenho que pede sutileza para ser notado, o que ele consegue; e a intervenções consistentes de Caco Ciocler, ator que se impõe mesmo em sequências de escuridão. Enfim, uma montagem com um fio de insolência até quando o elenco sai do palco e não retorna para os agradecimentos (a célebre versão de O Rei da Vela, do Teatro Oficina (1967) terminava assim, mas o motivo ficava claro na faixa com um texto de Oswald de Andrade).

Em um volteio acadêmico, digamos que A Amante é uma criação à qual se pode anexar a opinião da ensaísta portuguesa Helena Barbas. Diz ela que a obra de Duras "constrói um paradoxo sobre o valor do discurso, verdadeiro ou falso - são ou louco. Questiona-se, indiretamente a verdade judicial, e abertamente a ficcional. A crença nas palavras é um jogo, que se pode ou não levar a sério". Numa relação desafiadora com o espectador A Amante exige que ele enxergue a parcela de vida ainda não sufocada pela tempestade de imagens e barulho do mundo atual.

Crítica: Jefferson Del Rios

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