Guillaume Horcajuelo/Efe
Guillaume Horcajuelo/Efe

Amanhã é dia de Palma

Terrence Malick, de A Árvore da Vida, é o favorito da crítica na mostra que termina amanhã

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2011 | 00h00

Havia uma genuína tristeza no olhar de Lars von Trier quando ele conversou com o repórter do Estado (e um grupo de jornalistas de diferentes procedências do mundo todo). Ele disse que suas declarações - simpatia por Adolf Hitler, duras críticas ao Estado de Israel - não têm perdão, mas pelo menos tentou se explicar. "Estava de muito bom humor e comecei a brincar. Sabe aquela sensação de que você está derrapando na curva e não consegue controlar o carro? Foi o que senti quando comecei a dizer aquelas bobagens. Não havia como recuar e eu segui em frente, mas sabendo que caminhava cada vez mais por terreno movediço."

Sobre o banimento do 64.º Festival de Cannes, ele reflete: "Respeito demais Thierry Fremaux e Gilles Jacob (respectivamente, diretor artístico e presidente do Festival de Cannes) para contestar a decisão deles. Até os admiro mais por isso, porque imagino que deva ter sido difícil". A própria assessoria do diretor dinamarquês admite que ele tem dado trabalho, nos últimos tempos. Ora faz provocações, ora viaja na melancolia - como parecia estar viajando ontem. Melancolia tem tudo a ver com seu novo filme, Melancolia, que a Califórnia promete colocar logo nos cinemas brasileiros.

Será inédito. Woody Allen (Meia-Noite em Paris), Lars von Trier (Melancolia) e Terrence Malick (A Árvore da Vida) estão sendo prometidos para junho/julho nos cinemas do País. Você não terá de esperar pelo Festival do Rio nem pela Mostra de São Paulo para assistir a alguns dos filmes mais badalados de Cannes neste ano. Se o cineasta parecia perplexo, sua assessoria parecia revoltada.

"Pode ter sido de mau gosto, mas era evidente que Lars estava fazendo piada. Agora, quando um notório antissemita como Mel Gibson aparece em pele de carneiro a direção de Cannes lhe estende o tapete." O astro da série Máquina Mortífera pode ter faltado ao encontro com a imprensa - de certo para fugir a questões embaraçosas como os episódios de violência doméstica envolvendo sua ex-mulher russa -, mas não resistiu a pisar no tapete vermelho de Cannes, na apresentação de The Beaver, de Jodie Foster, que já estreia na semana que vem, no Brasil.

Talvez se pudesse aplicar a Lars von Trier a punição que o personagem de Sean Penn reserva para o nazista no fim de This Must Be the Place, de Paolo Sorrentino. "Não diga isso para ele, porque é capaz de topar", pede a assessora. Von Trier está vivendo na França o que parece ser sua tragédia grega pessoal. Ele já fez uma medeia, é bom lembrar. Agora, encarna um Édipo rápido. O Festival de Cannes destrói seu filho favorito.

Von Trier, afinal, é um dos diretores mais premiados da história do festival, incluindo a Palma de Ouro que recebeu por Dançando no Escuro. Não precisava ter feito aquelas declarações infelizes para chamar a atenção. Ele jura que não é nazista, mas bate pé. "Abomino Albert Speer, o criminoso de guerra, mas acho o arquiteto do Reich um gênio. Estaria mentindo, faltando comigo mesmo, se dissesse o contrário."

Na contramão das declarações de Von Trier, o italiano Sorrentino trouxe de volta a correção política a Cannes. Sorrentino é um grande diretor, mas This Must Be the Place, seu primeiro filme em língua inglesa, não vale O Amigo da Família nem O Divo. Os minutos iniciais beiram o insuportável. Você tem vontade de ir embora. Depois, a coisa melhora. Sean Penn faz um astro decadente de rock. Judeu, ele fugiu de casa quando jovem convencido de que o pai não aceitava um filho que se maquiava como mulher. O pai agora morreu e Penn resolve concluir a tarefa que ele deixou inacabada. Ele parte atrás do nazista que humilhou seu pai no campo de extermínio, há quase 70 anos.

O festival termina neste fim de semana. Amanhã, o júri presidido por Robert De Niro atribui a Palma de Ouro. A Árvore da Vida, de Terrence Malick, é o favorito de boa parte da crítica. É até óbvio, o protótipo do filme de arte (e de festival). Le Havre é um grande filme de Aki Kaurismaki, mas o júri é capaz de achar que se trata de apenas mais um bom filme do autor finlandês. Os Dardenne já ganharam duas Palmas - uma terceira por Le Gamin au Vélo parece excessiva, mas o filme é dos que valem a pena.

Quem leva - Almodóvar? De Niro já disse que quer premiar filmes, não autores. Só louco para achar que La Piel Que Habito merece o prêmio máximo. O suspense termina amanhã. Ainda faltam alguns concorrentes. Radu Mihaileanou, com sua Fonte das Mulheres. Nuri Bilge Ceylan, com Era Uma Vez na Anatólia. De certeza, o festival deve-se encerrar em Beauté - Na Beleza e fora de concurso - com Os Bem Amados, de Christophe Honoré, com a deusa Catherine Deneuve.

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