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Amanda Gomes conquista principal prêmio da ‘Olimpíada’ do balé

Bailarina de 21 anos concorreu com 155 profissionais de 45 países no International Ballet Competition em Varna, na Bulgária

Juliana Ravelli, ESPECIAL PARA O ESTADO

01 Agosto 2016 | 03h00

Foram 20 anos até que uma bailarina brasileira ganhasse novamente a medalha de ouro do concurso de dança mais tradicional do mundo, o International Ballet Competition em Varna, na Bulgária. Amanda Gomes, de 21 anos, concorreu com 155 bailarinos, de 35 países. Além do ouro, recebeu outros dois prêmios: melhor coreografia contemporânea e um convite para dançar no próximo ano com o Sofia National Opera and Ballet, na Bulgária. No sábado, ela participou de uma gala com todos os medalhistas e convidados.

Criado em 1964, o evento ocorre a cada dois anos (está na 27.ª edição). É conhecido como a olimpíada do balé e tem sua própria pira. Acesa na cerimônia de abertura, queima até o último dia. Amanda e o bailarino francês Paul Marque – que ganhou o ouro entre os homens – apagarão a chama.

A goianiense é solista no Ballet da Ópera de Kazan, na Rússia, onde atua desde 2014. Estava feliz por ter chegado até a última fase do concurso, mas não imaginava ser premiada. “Foi muito concorrido. Na conferência com os jurados (14 personalidades da dança mundial), eles disseram que foi difícil, porque não sabiam quem eliminar. Então, pensei: ‘Ufa, só de ter chegado na final já estou feliz’”, disse Amanda, por telefone, ao Estado.

A competição de Varna, uma cidade banhada pelo Mar Negro, tornou-se lendária tanto entre participantes quanto aqueles que só ouviram suas histórias. Entre os premiados no concurso estão as estrelas russas Mikhail Baryshnikov, Natalia Makarova, Natalia Bessmertnova e Vladimir Vasiliev (presidente do júri do evento neste ano), a francesa Sylvie Guillem, o norte-americano Fernando Bujones e o ucraniano Vladimir Malakhov. 

Mas a aura mítica não resulta somente desses nomes. A olimpíada da dança é uma maratona. A grande quantidade de participantes faz com que as apresentações, que duram 15 dias, estendam-se até a madrugada. Os bailarinos perdem a noção de tempo. O palco principal fica a céu aberto, as paredes e colunas ao fundo são cobertas por plantas. Não há coxias. O piso é de madeira, sem linóleo (espécie de tapete usado na maioria dos palcos e salas de dança). O evento sempre ocorre em julho, verão no Hemisfério Norte. Segundo Amanda, é quase impossível ensaiar durante o dia no palco. “Eles dão tempo de ensaiar, mas você não consegue girar nem saltar porque o sol está na sua cara, e o calor é insuportável.”

Estúdios da cidade ficam à disposição dos bailarinos. Mas as salas, em geral, não são boas. Para executar os ‘lifts’ (movimentos em que o bailarino eleva a parceira), por exemplo, Amanda e seu partner tiveram de usar uma quadra de basquete. “As condições do concurso também fazem dele um dos mais difíceis.” 

No momento da inscrição, o bailarino pode escolher que país vai representar. Mesmo estando na Rússia há dois anos, Amanda não pensou duas vezes e escreveu Brasil. “Tem muita gente que representa outros países, mas não tem como. Como eu poderia dançar sem representar o Brasil? Iria ganhar a medalha de ouro agora para a Rússia? Sempre vou representar meu país onde quer que for. Não tem outra opção.”

Trajetória. Amanda e seu partner não tiveram patrocínio. Arcaram com todos os custos da viagem e do evento sozinhos. A bailarina conta que há algum tempo sentia falta de dançar em concursos. Teve a ideia de convidar o amigo Mikhail Timaev, primeiro-bailarino na Ópera de Kazan, para participar de competições. Ele adorou a proposta. “Acho que concurso é muito bom para se apresentar, mostrar a cara para quem está nesse mundo lembrar de você e, quem sabe, surgir convites.” Em Varna, Timaev não competiu; foi somente como acompanhante da brasileira.

A competição é dividida em três fases (todas eliminatórias) e exige a apresentação de três obras clássicas e duas contemporâneas. Para se preparar, Amanda e Timaev ensaiavam nas folgas da companhia. Também compraram os dois trabalhos contemporâneos, os duos Beijo – que ganhou o prêmio de melhor coreografia –, do russo Alexander Mogilev; e Sophia, do britânico Alessandro Caggegi. Também dançaram os grands pas de deux clássicos de Dom Quixote, O Quebra-Nozes e Laurência. 

Aos 10 anos, Amanda se mudou com a família para Joinville, Santa Catarina, para estudar na Escola do Teatro Bolshoi no Brasil. Formou-se seis anos depois, e passou mais dois na Companhia Jovem Bolshoi Brasil. Ainda estudante, começou a participar de concursos internacionais. Apresentou-se em competições nos Estados Unidos, Turquia e Rússia, nos quais sempre obteve os primeiros lugares. Foi no 13.º Russian Open Ballet Competition, em Perm, que recebeu a proposta para trabalhar em Kazan. Por enquanto, Amanda continuará na mesma companhia. Ainda não surgiram convites de trabalho. Mas pensa, em um futuro próximo, ir para teatros maiores, talvez na própria Rússia. 

‘Espero que não demore mais 20 anos’, diz primeira campeã

Andrea Thomioka esteve na Bulgária em 1996 e ganhou a medalha de ouro para o Brasil como a melhor bailarina

Andrea Thomioka foi a primeira brasileira a conquistar a medalha de ouro na International Ballet Competition em Varna, em 1996. Completou 20 anos durante o concurso. Ao contrário de Amanda Gomes, ela ainda não era uma bailarina profissional quando participou do evento na Bulgária. 

Thomioka, hoje curadora de dança do Centro Cultural São Paulo, era aluna de Toshie Kobayashi – um dos principais nomes da dança clássica nacional, que morreu em maio. Em 1995, a bailarina havia ganhado a medalha de bronze na 7.ª Masako Ohya World Ballet Competition em Osaka, no Japão. No ano seguinte, aceitou o desafio de ir para Varna. “Tive de buscar em um mapa para saber onde era. Há 20 anos, as pessoas não sabiam o que a gente fazia aqui no Brasil.”

Cerca de 20 dias antes de embarcar, a bailarina teve de trocar de partner. Marcus Vinicius Lacerda precisou aprender às pressas as cinco obras que teria de apresentar com Thomioka na competição: os grands pas de deux de Cisne Negro, Dom Quixote e Diana e Acteon e os trabalhos contemporâneos Valsa sem Nome e Shogun – que também recebeu medalha de prata de melhor coreografia –, os dois de Ivonice Satie.

Mas os percalços continuaram. Na viagem para a Bulgária, as bagagens foram extraviadas. “Fazia 32º, a gente com a roupa do corpo, os tutus, as sapatilhas e a música. Ficamos quatro dias assim”, conta. “No primeiro passeio, fomos comprar uma roupa que a gente pudesse fazer aula.”

Improvisando, a dupla praticava no corredor do hotel, segurando na calefação. “Quando chegamos, o concurso ainda não havia começado e não tinha como ficar sem aula”, justifica.

Thomioka recorda as apresentações madrugada adentro, o sol escaldante durante os ensaios e a beleza do palco aberto. “Aquele palco é maravilhoso, divino.” Também lembra que, à medida que passava de fase, despertava a ira de outras concorrentes, principalmente as francesas do Ópera de Paris, que não se conformavam com a conquista de um país com menos tradição no balé. 

“A medalha serviu como reconhecimento do trabalho de muita gente. Sinto muita honra”, diz Thomioka. “Mas vinte anos depois, o que mudou? A Amanda já está lá fora, mas e se não estivesse? Quais seriam as perspectivas de carreira para ela aqui?”, questiona. “São vinte anos. Acho que a gente conseguiu bastante coisa. Tanto que existem muitas escolas (no exterior) que querem bailarinos brasileiros porque sabem que a gente tem muito talento.”

E conclui: “Não quero acreditar que, em 20 anos, o que a gente promoveu foi só a exportação dos nossos talentos”, diz. “E espero que não demore mais 20 anos para o Brasil ganhar outra medalha de ouro.”

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