Amado reage à crise e relança obra

Uma raridade pinçada dos inúmeros escritos de Jorge Amado está sendo relançada. A Bola e o Goleiro (Ed. Record, R$ 13), obra de 1984 que marca a segunda e, por enquanto, última incursão do escritor baiano na literatura infantil, é sua mais recente obra a chegar às livrarias. O relançamento ocorre enquanto o autor recupera-se de uma forte depressão, da qual sofre desde 1988, quando passou a ter problemas de visão. "Jorge está em tratamento. Ele teve uma grande depressão por causa de uma degenerescência na retina. Não pode ler e escrever como fazia, de manhã à noite. Mas já está sensivelmente melhor da depressão", informa, de Salvador, Zélia Gattai, sua mulher há 55 anos. Longe das viagens e eventos sociais, cercado de cuidados pela família, o escritor de 88 anos tenta adaptar-se à rotina de ler com o auxílio de um ampliador de letras. E faz, por meio de Zélia, elogios à reedição, ilustrada pelos bordados da família Dumont. "Jorge é fã das bordadeiras", diz, referindo-se ao trabalho das costureiras que viraram ilustradoras. Zélia também está de volta às livrarias. E, a exemplo do marido, com um livro infantil. O inédito Jonas e a Sereia (Ed. Record, R$ 15) é sua terceira obra destinada a esse público (as outras duas são Pipistrelo das Mil Cores e O Segredo da Rua 18). Mas Zélia faz ressalvas ao classificar o leitor de seu livro. "É um público sem idade. Até os mais velhos se divertem lendo", diz a autora. Amores insólitos entrelaçam os novos lançamentos do mais célebre casal da literatura brasileira. A paixão de uma bola por um goleiro delineia a trama de Jorge Amado. E o amor de um peixe por um pescador dá o tom de Jonas e a Sereia. Ao lançar, em 1976, seu primeiro livro infantil, O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá - que também tinha um romance insólito como tema -, Jorge Amado disse que lhe faltava a necessária inocência para escrever uma obra destinada às crianças, sobretudo uma inocência "de linguagem". A Bola e o Goleiro exibe a linguagem fluente de um escritor experimentado, narrando a história da bola que não perde nenhum gol e sua fulminante paixão pelo goleiro frangueiro. Situação igualmente bizarra é a do pescador Jonas, que cai de amores por um dos peixes que pesca. "A idéia me veio de repente. Tinha acabado de escrever Città di Roma e me deu vontade de escrever para criança. Parti de uma curiosidade que sinto desde pequena: como nasce uma sereia?", divaga Zélia. Amanhã, a autora fará a primeira leitura pública de Jonas e a Sereia na Fundação Casa de Jorge Amado, em Salvador. O lançamento deverá ocorrer após o carnaval - sem a presença de Jorge. Ausente do evento, o escritor marca presença no livro de sua mulher. "Boto Jorge em tudo, mas como é que vou botar nesse livro?", pensou a autora. A solução é singela como um carinho. Quando um dos personagens pergunta se pode homem amar peixe, recebe como resposta uma citação "de certo escritor baiano, por demais conceituado": "Pra quem ama de verdade, o impossível não há".

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