Amado e a descoberta de um País

João Ubaldo Ribeiro e Walcyr Carrasco lembraram o autor na Casa de Cultura

LAURA GREENHALGH , ENVIADA ESPECIAL / PARATY, O Estado de S.Paulo

06 Julho 2012 | 03h07

Duas vertentes guiaram o disputado encontro em torno dos 100 anos do escritor Jorge Amado na manhã de ontem, na Casa de Cultura de Paraty. De um lado, a longa convivência do escritor João Ubaldo Ribeiro, colunista do Caderno 2, com o amigo, compadre e conterrâneo centenário, com quem dividiu experiências de vida e com quem tanto conversou sobre literatura. De outro lado, o questionamento feito a Walcyr Carrasco sobre os limites da liberdade que ele próprio teve, ou tomou, ao adaptar o romance Gabriela para o formato de uma mini-novela com pouco mais de 70 capítulos, atualmente em cartaz na Rede Globo. O diálogo entre João Ubaldo e Walcyr foi mediado pelo jornalista e escritor Edney Silvestre, que já no início enfatizou a impossibilidade de se compreender o Brasil sem passar pelo célebre autor baiano.

Para João Ubaldo, esse Jorge Amado essencial se manifesta já no fato de que foi ele quem introduziu o negro como elemento protagonista na literatura brasileira. "Isso não existia antes de Jorge. E teve um impacto tremendo além das nossas fronteiras, na cultura lusófona como um todo, pois sua literatura acabou servindo como farol espiritual para as populações africanas humilhadas pelo regime opressor. Aqui no Brasil, através da literatura de Jorge Amado, essas populações ganharam a possibilidade de expressão."

Questionado pelo mediador, Walcyr Carrasco justificou certas liberdades ao adaptar uma das obras mais famosas do escritor para a TV - como, por exemplo, importar personagem de outro romance de Jorge Amado, o nem tão lido Jubiabá, para Gabriela, o mais conhecido - alegando que, se novidades foram introduzidas no roteiro, há no entanto um núcleo duro da obra que foi fielmente preservado: "As relações de poder e as alterações de moral e comportamento de uma época, nisso eu não mexi. Ao contrário, eu disse a mim mesmo que precisaria preservar a qualquer custo".

Durante muito tempo, e segundo vários estudiosos da obra de Amado, Gabriela figurou como o romance que marcaria o afastamento do autor do Partido Comunista Brasileiro e um certo distanciamento das teses ideológicas. Ubaldo não compra totalmente a ideia. "Gabriela não é um momento de ruptura, porque de fato isso não aconteceu de forma tão deliberada. O que houve foi que, ao escrever o romance, Jorge, que morava no Rio, estava se preparando para voltar a viver na Bahia. O que mudou naquele momento foi uma postura diante da vida e não uma concepção ideológica. A partir daí, ele engordou estilisticamente, foi tomando uma certa pachorra diante da vida...númeras vezes eu o ouvi dizer 'compadre, existe fdp tanto de direita quanto de esquerda'."

Embora a obra de Jorge Amado tenha sido objeto de recente reedição pela Companhia das Letras, os autores convidados da Casa de Cultura trataram de refletir por que ainda ele é tão pouco lido no Brasil. Para Walcyr, o Brasil pode estar dando passos à frente na educação, mas ainda não investe em ações culturais e pedagógicas para fazer com que certos autores de fato contem para a formação do povo brasileiro. Já para João Ubaldo, ler é habito trabalhoso, requer cautelas ao ser estimulado. "Hoje fico arrepiado quando vejo certas tarefas pós-leitura impostas aos estudantes, coisas absurdas como 'defina o metatexto' em tal passagem, um horror! Chego a pensar que o ódio aos clássicos é algo instilado pelos professores. Já vem com eles. Daí porque se lê tão pouco neste País, e não só Jorge. Um CD no Brasil vende aos milhões. Um livro que vende 100 mil exemplares já é motivo para o editor mandar rezar um Te Deum."

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