Alvo preferencial

Os petardos mais violentos contra o governo Dilma não vêm da oposição, mas de setores do próprio PT - e a vítima favorita do esporte fratricida é Antonio Palocci

CARLOS MELO,

05 de março de 2011 | 10h17

 

 

 O fim da lua de mel entre governantes e eleitores nem sempre é vislumbrado com ansiedade apenas pela oposição. E se, neste momento, a oposição no Brasil se limita ao Twitter, com ressentimentos e muxoxos entremeados por idas ao Supremo, é num certo petismo que críticas agudas ao governo se expressam. Mais que PSDB, DEM, PMDB ou PDT, os petardos contra o que se qualifica rasteiramente como “neoliberalismo” são desferidos por membros do PT.

Deputados se ressentem de espaço; corporações, do atendimento de seus pleitos. Vaccarezza foi ceifado da pretensão à presidência da Câmara, a Fazenda e o Banco Central são judas contumazes e até Ana de Hollanda debutou na linha de tiro. No médio prazo, o alvo preferencial desse esporte fratricida será Antonio Palocci.

Ele sabe disso e desde a campanha se desvia dos holofotes. De fato, seria um erro atribuir ao chefe da Casa Civil virtudes de um governo conduzido por um núcleo pragmático, porém articulado entre si e sob a condução de uma presidente sincronizada à agenda de um bloco de poder constituído por forças econômicas, sociais e políticas voltadas a um projeto de desenvolvimento e poder continuados. Um homem sozinho não faz um governo; nem uma mulher faria.

Quando se precipitou, Palocci pagou caro. Por isso limita-se aos bastidores. Mas transmite posições com clareza, tem credibilidade; é conselheiro de Dilma. Sua posição pode até ser alternativa para a continuidade do projeto de poder. Por enquanto, ele é só mais um. Está à sua frente a presidente. E, talvez, à frente dos dois, o ex-presidente Lula.

Seus admiradores, porém, restituem-lhe os holofotes dispensados; a ele se agarram, a compensar a desconfiança em relação a Dilma. Mas qualificá-lo como hedge do governo é exagero, quando, no limite, a garantia da condução política será sempre a presidente.

O pedestal em que o elevam oferece seu crânio à mira dos balaços de vaidades afetadas; desperta o pior dos ciúmes, o político. Palocci não é Mozart, mas tem seus Salieris. Torna-se a centelha para o fogo das disputas.

Mas no que consistem essas disputas? Palocci à parte, esse tipo de conflito interno é fruto da disputa por espaço. Tensões latentes estão presentes na história e dissimulam até se explicitar em polaridades: Danton-Robespierre, Trotski-Stalin, Maluf-Andreazza, Covas-FHC, Serra-Malan.

No governo Lula, sua dramaticidade foi atenuada pelo mensalão, que inviabilizou pretensões. Primeiro, de José Dirceu, depois, de Palocci. No segundo Lula, o presidente pairou sobre despojos de lideranças calcinadas. Dilma emergiu como antecipação ao impasse a que mortos-vivos e muito vivos levariam à sucessão.

Agora, até para testar a habilidade presidencial, é natural que os conflitos reacendam. Parece doloroso suportar uma neófita petista no poder, que se fez petista pelo governo e foi ungida pelas mãos de Lula sem o referendo das “bases”. Mais cruel seria engolir um Palocci redivivo disparar à frente de inimigos íntimos. Ao expressar natureza, estilo e concepção rotulados pelo clichê “neoliberal”, como não transformá-lo em alvo?

Assim, a crítica à condução do governo - cortes, mínimo, câmbio, juros - se torna pano de fundo para uma luta que pode ser até programática, mas também é preventiva. Se no seu bojo virão escândalos e frituras, se ganhará a robustez de um embate real, ninguém poderá dizer. Sua maior ou menor intensidade dependerá dos resultados do governo. Como no curto prazo eles não devem ser auspiciosos, a pressão tende a aumentar. Eis o papel de uma aliança estratégica com Lula, o patriarca inconteste, capaz de anular oportunismos, desarmar arapucas, limitar escaramuças aos blogs da companheirada. No interior do “bloco do poder”, a manutenção do tripé “Dilma-Palocci-Lula” é fundamental.

Por enquanto, tudo está bem. E nada indica que o ex-presidente se esquivará disso. Mas mistérios e ressentimentos também podem pintar por aí: Dilma, querendo ou não, expressa diferenças em relação ao padrinho. Como rumores e dissonâncias são a trilha sonora da política, é bom se precaver para que “qualquer desatenção” não seja, enfim, “a gota d’água”.

CARLOS MELO É PROFESSOR DO INSPER E AUTOR DE COLLOR, O ATOR E SUAS CIRCUNSTÂNCIAS

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