Robert Caplin/YT
Robert Caplin/YT

Alucinações no âmago da aldeia

Dois novos títulos de Herta Müller, Nobel de 2009, publicados no País revisitam sua herança de paradoxos

Luis S. Krausz,

01 Fevereiro 2013 | 22h28

É bem conhecido o dito tolstoiano de que, para tornar-se universal, o escritor deve começar sempre por pintar sua própria aldeia. Seguir esse dito em nosso tempo é difícil: as aldeias sendo cada vez mais escassas, escritores aldeões já são quase inencontráveis. Herta Müller é a exceção notável que confirma ambas regras acima: nascida no Banato romeno, onde a repressão política de Nicolae Ceaucescu combinava-se com as tiranias costumeiras em todos povoados para mantê-la bem longe das grandes cidades e da liberdade, ela é a aldeã que nunca acaba de pintar sua aldeia. Duplamente aquinhoada, para o bem e para o mal, e certamente mais com este do que com aquele, com um isolamento raro em nosso tempo, descende da minoria étnica alemã da Romênia, formada por descendentes de suábios que José II despachou, no fim do século 18, para o que era então uma distante província oriental do Império Habsburgo.

Seus contos e romances formam uma épica em fragmentos de um mundo que é a sombra cada vez mais distante das promessas daquele monarca, que via a germanização do Leste Europeu como um gesto de benevolência, um favor à civilização. Isolados do mundo, sujeitos a uma miséria que é também tradução da má vontade dos poderes constituídos, os suábios do Banato guardaram a memória e a língua das terras de origem enquanto sucessivos governos romenos - especialmente o regime comunista, em vigor de 1947 a 1989 - os mantiveram à parte da história do país, os consideraram conspiradores, ou pelo menos suspeitos até prova em contrário.

Um momento excepcional nessa trajetória de exclusão foi a aliança da Romênia com as forças do Eixo, em 1940, que representou a possibilidade de liberdade para os suábios e entusiasmou jovens como o pai de Herta Müller. Encantado pelas quimeras do nazismo, ele se alistou na SS, o que reforçaria, sob o comunismo, as suspeitas que recaíam sobre sua família.

Lidar com tal herança de paradoxos é matéria para uma vida inteira, motivo a mais para a autora voltar sempre à sua aldeia, em livros como Depressões, O Compromisso e Sempre a Mesma Neve e Sempre o Mesmo Tio (Globo) bem como Tudo o Que Tenho Levo Comigo (Companhia das Letras). A esses títulos somam-se, agora, traduções do romance Fera d'Alma (título provisório), de 1994, e da novela O Homem É Um Grande Faisão no Mundo, de 1986, que saem, respectivamente, por aquelas mesmas editoras. Neles, a aldeia é também ponto de partida para uma poética que, ao sublimar o encadeamento de vivências sem sentido, determinadas pelas alucinações da política e das diferentes instâncias das tiranias, encaminhará o leitor pelos corredores de uma linguagem saturada de magia, uma catedral exuberante de nexos barrocos.

Em ambos, a autora transita pelo seu passado e o transfigura. A partir de um dia a dia cinza, cria refúgios de esperança, nuvens de fábulas secundárias que acompanham o desenrolar da narrativa e lhe emprestam novos significados. Em Fera d'Alma, esse procedimento literário aborda seus anos de estudante numa cidade que ainda não é cidade, pois, como diz Georg, um dos seus amigos suábios e personagem do romance, "saímos de casa com a cabeça, mas nossos pés ainda estão noutro vilarejo. Numa ditadura não é possível haver cidades, porque tudo que é vigiado é pequeno".

Fera d'Alma evidencia que a juventude pode também tornar-se um pesadelo que não passa, sob o lema "Deus cuida de você lá em cima e o partido, aqui em baixo". Lembranças da casa dos pais e dos avós acompanham cada passo dos personagens, assim como as notícias que chegam do Banato, onde agentes da infame Securitate, a polícia política, vasculham lares, humilham, prendem e matam moradores.

Lola, outra colega da autora, é uma moça que vai para a cidade grande estudar russo e pretende voltar para a aldeia acompanhada de um marido, que será respeitado e admirado por todos por causa de suas camisas brancas - insígnia das "pessoas importantes". Mas a morte e a degradação, que se torna um passatempo, por exemplo com o alcoolismo, rondam esses jovens - e não os projetos de futuro. Se cada um tem uma fera em sua alma, o que todos desejam é tornarem-se pássaros, para poderem voar, já que a única tradução possível da palavra esperança é fugir - e rios e campos da Romênia são vigiados por cães e guardas, que diariamente enviam para o cemitério todos os que conseguem capturar.

Em O Homem É Um Grande Faisão no Mundo o sonho de alçar voo e fugir também está presente - mas o faisão é uma ave medrosa, de asas curtas. Windisch, o protagonista, aguarda um visto de emigração enquanto cada vez mais suábios de sua aldeia se dirigem à Alemanha. Está em vigor um acordo firmado entre Ceaucescu e governo alemão ocidental, na década de 1980, e os descendentes de alemães são trocados por moeda forte, que ajuda a conter a miséria no país e a derrocada do regime. Foi, aliás, no âmbito desse programa que Herta Müller emigrou, em 1987.

A violência é o pão de cada dia no povoado de Windisch e as crianças desde cedo aprendem a lidar com a crueldade: matam sapos, lagartos, filhotes de aves que ainda não sabem voar. Mais crescidos, esfolam bodes vivos. Nesse mundo sangrento, a corrupção e o medo governam existências despedaçadas. O fio narrativo da novela tem que ser decifrado aos poucos e ameaça, o tempo todo, dissolver-se na pletora de imagens poéticas criadas por frases curtas, que exigem leituras lentas, meticulosas.

A música dilacerante dessas obras, que atinge o leitor como um golpe, está presente, também, no português das admiráveis traduções de Claudia Abeling e Tércio Redondo, respectivamente.

LUIS S. KRAUSZ É PROFESSOR DE LITERATURA JUDAICA E HEBRAICA NA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO E AUTOR DE PASSAGENS: LITERATURA JUDAICO ALEMÃ ENTRE GUETO E METRÓPOLE (EDUSP/FAPESP) E DESTERRO: MEMÓRIAS EM RUÍNAS (TORDESILHAS), ENTRE OUTROS TRABALHOS

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