Altruístas longe das virtudes

Dirigida com graça e precisão, peça de Nicky Silver desmonta as máscaras sociais contemporâneas

O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2011 | 03h08

Criticar e confrontar são atitudes previstas e louváveis na linha de frente da produção artística. Ofender é, de modo genérico, uma atitude recente. "A peça é ofensiva? Espero que sim. Era minha intenção ofender, tanto quanto ser engraçado". Essa cândida afirmação que precede uma das peças do dramaturgo norte-americano Edward Albee, escrita no limiar dos anos 60 do século passado, sinaliza um movimento reverso na relação entre o palco e a plateia. Em vez de limitar-se à crítica ou à exploração sempre rendosa das perfídias dos governantes - a representação neste caso alimentaria o vício da indignação -, há uma vertente artística investindo contra o bem-intencionado público da arte de vanguarda.

Não é preciso esclarecer para esse homem comum e quase virtuoso sentado na plateia dos teatros ou cinemas as injustiças e a crueldade do mundo em que vive. Ele sabe. Por essa razão, no íntimo, sabe também que merece apanhar. Zombar das boas intenções e das práticas inócuas é, considerando as circunstâncias, uma aliança secreta entre artistas e público para comungar a desilusão. Bem cuidado desde o berço, presume-se, o indivíduo da classe média joga o lixo no lixo, respeita as diferenças de gênero, etnias, crenças, aptidões e classes sociais e alinha-se formalmente contra todo e qualquer autoritarismo. Ainda assim, sabe que está contribuindo passivamente para eliminar alguns povos de costumes desagradáveis e tornar inabitável para a sua espécie o planeta que a acolheu.

Três personagens que o autor norte-americano Nicky Silver enfileira em Os Altruístas são desmontagens da máscara das virtudes sociais contemporâneas. Ativistas de movimentos sociais e um funcionário de uma instituição pública dedicada ao bem-estar são planetas orbitando ao redor de uma cintilante (e riquíssima) estrela de melodramas televisivos. Única figura a ostentar com franqueza apetite consumista e o direito à impunidade dos ricos, a atriz, representada no espetáculo por Mariana Ximenes, é também a personagem que desencadeia as peripécias da trama. Dominando bem a mecânica da comédia de enganos, Silver encaminha a narrativa para uma solução final que elimina resquícios de escrúpulo que, por acaso, tenham sobrado no fundo do baú mental de um bando de aproveitadores. O fato de que há uma narrativa caminhando para a demonstração final da indiferença de todos pela felicidade alheia é uma espécie de brincadeira com um certo tipo de comédia fora de moda e tecnicamente complicada. A parte realmente suculenta da peça, no entanto, é a sucessão de solilóquios velozes endereçados ao espectador, esse irmão e semelhante.

Dirigida por Guilherme Weber, a graça e a precisão permeiam as brechas das manifestações grotescas e agressivas e essa tonalidade alicia o público para a identificação negativa com a narrativa. É mais fácil deglutir ou rir à socapa das frases ofensivas quando o discurso é matizado e ambíguo. Nesse sentido, a abertura da peça pelo assistente social, interpretado por Kiko Mascarenhas, é uma espécie de súmula das artimanhas do gênero cômico. De inicio há o tom meio amargurado, suave e autodepreciativo com que a personagem descreve o seu ambiente de origem. A ironia e o sarcasmo insinuam-se aos poucos, como atmosfera exterior indicada pela imagem e pela postura física do ator. É uma composição de excepcional perícia técnica, executada sobre uma partitura indicando diferentes registros vocais. Nos breves momentos em que abandona a inflexão maneirosa é possível entreouvir a frieza distanciada da personagem.

Sem contar com os derivativos do discurso ético e da hipocrisia, o trabalho de Mariana Ximenes é pautado do começo ao fim pela alta tensão da histeria e do estado alterado por intoxicação. Presa a essas circunstâncias do texto, a interpretação é altissonante, fisicamente destrambelhada, e tão deselegante quanto possível em contraste com o desenho glamouroso da aparência física inspirada em Marlyn Monroe. Força física, intensidade e clareza na emissão de frases sempre iradas parecem extraídas da observação direta do egocentrismo e da paranoia. Ao contrário das outras interpretações nitidamente simbólicas e exageradas para obter o efeito cômico, a composição da teleatriz Sidney só pode incitar a repulsa por meio de uma grossura "natural". Quanto aos dois profissionais da militância política, papéis assumidos por Stella Rabello e Miguel Thiré, a direção reequilibra a função marginal que essas duas personagens desempenham no texto. O capricho do desenho, o modo como se relacionam em cena em um espetáculo onde não há fugas para fora do palco sugerem a comédia de enganos sob o teatro da crueldade. São jovens "produzidos" para desfrutar a si mesmos e os outros e essa indiferença meio jocosa reproduz a noite paulistana do lado de fora do teatro.

Não é a primeira vez que Nicky Silver sacrifica uma vítima inocente nos palcos paulistas, sempre com a cumplicidade de Guilherme Weber. Jonathan Haagensen faz o papel de um garoto sacrificado de corpo e alma para preservar o modo de vida das outras personagens. Com uma ótima personagem e sob uma direção que avalia o efeito dramático da esperança traída Haagensen põe à prova a capacidade de público de apiedar-se.

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