Altos e baixos

Bethânia cantando Chico Buarque oscilou entre fortes emoções, momentos previsíveis e erros feios

LAURO LISBOA GARCIA , CURITIBA, O Estado de S.Paulo

22 de novembro de 2011 | 03h06

Um vídeo de Maria Bethânia cantando Sem Fantasia com Chico Buarque, no show de 35 anos de carreira da cantora, em 2000, no Rio, foi o momento de maior comoção na apresentação de anteontem em Curitiba, dentro do projeto Circuito Cultural Banco do Brasil. A canção em forma de diálogo é um dos marcos do histórico encontro do compositor e da cantora em 1975. Não por acaso ela incluiu no roteiro outras seis canções daquele show, registrado em disco ao vivo: Sonho Impossível, Sem Açúcar, Gota d'Água, Quem Te Viu, Que Te Vê, Olê Olá e Noite dos Mascarados.

Além disso, Bethânia contempla outras canções pontuais de Chico em sua carreira, especialmente da década de 1970, como Rosa dos Ventos (que abre o primeiro ato), Terezinha (primeira do segundo ato) e Olhos nos Olhos. Sem grandes surpresas, é nessas em que ela demonstra estar mais à vontade. Para quem acompanha a carreira da cantora, isso é tão natural quanto previsível.

O Baioque que Chico faz em seu show atual, assumindo uma pegada forte roqueira, é muito mais intenso do que o Bethânia e banda colocam em cena. O primeiro ato, aliás, é um tanto tenso, custa a engrenar, com músicos e cantora não falando a mesma língua em vários momentos.

Na sequência de Sem Fantasia, perto do fim do show, ela canta outro clássico do compositor, Olê Olá, em que diz "não chore ainda não", "não vale chorar". Soou até irônico, já que entre os mais de 2.200 fãs que lotaram o Teatro Guaíra havia nesse momento muitos deles enxugando as lágrimas.

O vídeo tanto arrebatou o público quanto expôs a fragilidade de outras amarras do show e, por conta desse impacto, nos bastidores a diretora Monique Gardenberg, idealizadora do projeto, comentou que deve haver modificação no roteiro já na apresentação de hoje em São Paulo. Como mais uma profunda declaração de amor a Chico, Bethânia deve cantar Todo o Sentimento, que tinha ficado de fora.

Amor ou desamor, ternura, tempo e memória são temas que compõem o roteiro de mais de 30 canções - como Tatuagem (letra de Ruy Guerra), Tira as Mãos de Mim, Valsinha, Maninha, João e Maria, Minha História.

Como sempre monta seus shows pautada pela teatralidade, Bethânia também elegeu canções de forte carga dramática, como as de conotação política e social, algumas das quais o próprio Chico já considerou datadas, mas têm lugar na memória afetiva dela e do público e podem ser interpretadas em outro contexto - Roda Viva, Cálice, Apesar de Você e Vai Trabalhar Vagabundo, Gente Humilde (parceria com Garoto e Vinicius de Moraes) mantém-se firme. Já Brejo da Cruz é uma que pode ser suprimida do roteiro sem prejuízo da dramaturgia. Primeiro porque é uma das canções mais repetitivas e menos estimulantes de Chico. Segundo porque Bethânia não decorou a letra (convenhamos, a maioria não é fácil) e cometeu vários deslizes.

Tropeços. Em outros momentos ela também se atrapalhou na leitura de versos em papel impresso apoiado numa estante de partituras. Não há encanto que mantenha o interesse do público em situações como essa. Ainda que no teleprompter dê para disfarçar melhor, cantar lendo, sem dirigir o olhar para a plateia, como no caso de Vai Trabalhar, Vagabundo e até A Banda (no bis), que todo mundo conhece, fica frio, burocrático. E ela sabe disso.

Quando se tem um curinga para lançar em seguida, dá para levar adiante. O duro é quando se chega ao final que deixa marcas de decepção, porque o que tinha intenção de ser apoteótico vira um anticlímax. Além de ela tropeçar na letra, o samba-enredo Chico Buarque da Mangueira (a única sem a assinatura dele no show) é fraco, só tem um refrão razoável, e não surtiu efeito. Fica a sugestão para o encerramento: apesar de batida, já que está aí, Quem Te Viu, Quem Te Vê sempre tem uma forte resposta do público e aqui não foi diferente. É o samba saindo de cena com a altivez digna do compositor e da intérprete.

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