Altman e sua virulenta Cerimônia de Casamento

Estrutura coral, quase 50 personagens, poucas vezes o cinema foi tão fundo na denúncia da hipocrisia social

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2013 | 02h11

Em 1978, praticamente fechando uma década que havia sido prodigiosa, Robert Altman fez um filme que, na época, foi recebido como OK, mas hoje é reconhecido como um de seus melhores. O Instituto Moreira Salles recupera, em seu selo de cinema, A Wedding, Cerimônia de Casamento. Você vai encontrar admiradores para filmes que Altman fez depois, como O Jogador, Short Cus/ Cenas da Vida e até Assassinato em Gosford Park. Mas Cerimônia de Casamento foi algo como um apogeu e uma despedida.

Embora tenha se iniciado nos anos 1950, Altman só estourou em 1970, com o fenômeno MASH. Em 1975, fez Nashville, soltando sua câmera entre dezenas de personagens para tecer um complexo retrato da crise da 'América', nos anos de Watergate. Havia, na estrutura coral do relato, uma influência do Luis Buñuel de O Discreto Charme da Burguesia, e Altman retomou o formato no Casamento.

Logo na abertura, a lendária Lilian Gish, matriarca de uma família riquíssima, morre. Mais do que triste, o fato é consternante porque ela morre às vésperas do casamento da bisneta. Com os convidados chegando, a solução é esconder o óbito e prosseguir com a festa. Tudo é maior aqui - até o número de personagens. Se eram 24 em Nashville, eles dobraram, e são 48. Altman filma um mundo de aparências. O cadáver escondido é metáfora de um mundo em que todo mundo tem algo a esconder. Poucas vezes a hipocrisia social foi tão exposta. Os anos 1980 não foram bons para o autor e ele só voltou a se dar bem nos 90.

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