Alquimia poética de Jorge Ben na discoteca Estadão

Nos meados dos anos 70, a alquimia poética e rítmica de Jorge Ben ia de vento em popa. Embalado pelo sucesso nacional e internacional que alcançara no fim dos anos 60, Ben atingiu o ápice de um poder criativo que transformava o chumbo de frases desconexas e ilógicas em ouro musical (vide a famosa "Quem foi que roubou a sopeira de porcelana chinesa que a vovó ganhou da baronesa", do disco Jorge Ben, de 69).

Roberto Nascimento, O Estado de S.Paulo

05 de dezembro de 2010 | 00h00

Talvez o registro mais emblemático dessa fase seja A Tábua de Esmeralda, que é forte concorrente ao título de melhor disco de Ben e está sendo relançado pela Discoteca Estadão (nas bancas no próximo domingo).

Como em todos os melhores momentos do cantor, A Tábua é um disco intensamente rítmico, guiado por uma profusão de temas aparentemente sem sentido: as letras se inspiram em fontes que vão do latim, à beleza feminina, à alquimia. Esta última exercia fascínio sobre o músico que havia lido os textos do faraó Hermes Tresmigresto traduzidos pelo alquimista Fulcanelli e, inspirado, compôs a própria Hermes Tresmigresto, o Homem da Gravata Florida, que faz homenagem ao alquimista Paracelso e a antológica faixa de abertura Os Alquimistas Estão Chegando, em que descreve o trabalho de um alquimista: "São pacientes, assíduos e perseverantes. Executam, segundo as regras herméticas, desde a trituração, a fixação à destilação e a coagulação."

Embora a maneira com que Ben costura melodias com letras sobre qualquer assunto em A Tábua se afastasse do cancioneiro politizado de Caetano e Gil, por exemplo, suas composições não são tão alienadas quanto parecem. Basta pensar em um samba-enredo sobre o tema mais absurdo, que as letras ganham contexto cultural.

A alquimia é o tema mais forte do disco, mas Ben não tem problemas para se afastar do assunto. Em Eu Vou Torcer, ele enumera todas as coisas pelas quais torce: "Paz, amor, alegria, moças, bonitas, sorriso, primavera namorada, verão, céu, outono, dignidade, agricultura celeste, sugestão, São Tomás de Aquino." É bela síntese da colcha de retalhos de Ben. Mas é na área rítmica que o morro carioca se faz ouvir com mais apreço.

A maneira com que Ben e sua banda mesclam samba e funk (hoje conhecida por uma profusão de nomes duplos que vai do samba-rock, samba-soul ao samba-funk) havia se solidificado uma década após o início de uma carreira que começou embalada pelas batidas leves do samba-jazz.

No disco, o samba bastardo de Ben tem a característica influência do funk pesado de Parliament Funkadelic e outros grupos de funk soul da época. O peso da banda é notável e a famosa batida de violão criada por Ben como uma variante intuitiva do iê-iê-iê que dominava a época ("chacatum", como ficou conhecida), é destilada à perfeição. Em Menina Mulher de Pele Preta ela começa alucinante mas rapidamente se acomoda sobre a cama rítmica arrastada da banda de Ben. Como no restante do disco, a produção é simples, exatamente o que um mestre do suingue absurdo precisava para fazer um grande disco.

A TÁBUA DE ESMERALDA

Jorge Ben

Preço: R$ 14,90

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