Alquimia entre o piano clássico e a voz popular

CD Night, da pianista Simone Dinnerstein e da cantora folk Tift Merritt, cruza gêneros com ótimo resultado

JOÃO MARCOS COELHO, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2013 | 02h12

Aos 34 anos, em 2007, a norte-americana Simone Dinnerstein era uma pianista promissora, mas desconhecida. Para sair do anonimato e convicta de que tinha algo diferente a "dizer" sobre as Variações Goldberg, financiou os custos de gravação de um CD com a obra-prima de Bach no American Academy of Arts and Letters Auditorium em Manhattan, conhecido pela excelência de sua acústica. Lançado pela Telarc, ganhou vários prêmios e lançou-a no circuito internacional de concerto.

Hoje com carreira consolidada, Simone ainda mantém a chama da irreverência e da transgressão, agora centrada no conteúdo de seus projetos musicais. O recém-lançado CD Night atesta essa audácia. Ela convidou a cantora e compositora folk Tift Merritt para uma noitada imprevisível, que funde sem pretensão os universos da música clássica e do folk. De um lado, ambas exploram pontos comuns nestes gêneros tão diferentes entre si; de outro, percorrem juntas novas paisagens sonoras. Conheceram-se em entrevista e show de rádio de Tift Merritt. Tinha tudo para dar errado. Uma, formada na Juilliard School de Nova York e nascida no Brooklyn; a outra, intérprete da Carolina do Norte que toca de ouvido. Perceberam, no entanto, que sua paixão pela música era a mesma.

Uma integração que culmina neste belo CD. Em Only in Songs, faixa de abertura, assinada por Tift Merritt, o piano só aparece lá pelos 3 minutos. Até lá, reinam a voz e o violão folk de Tift. Na verdade, confessou Simone em entrevistas, apesar de incorporarem canções de universos tão distintos, a gravação foi concebida como um ciclo de canções à la Schubert. Por isso mesmo, a Only in songs, segue-se o lied de Schubert Nacht und Träume. Uma canção estática em que o poeta chama a noite de sagrada e pede que lhe invadam doces sonhos. Com direito até a uma gaitinha de boca folk. Irrompe então Don't Explain, de Billie Holiday, inspirada na leitura de outra diva, Nina Simone. "Ela estudou piano clássico", diz Simone, que buscou emular o toque visceral da outra Simone. Conseguiu.

O estranho e fascinante "ciclo" de canções dá então um salto histórico. Tift e Simone vão até a Inglaterra do século 17 para recriar O Lamento de Dido, da ópera Dido e Eneas, de Purcell. Quando a gente começa a se aclimatar, outro salto nos sacode, de volta para o século 21. O pianista de jazz Brad Mehldau escreveu para o duo a bela canção I Shall Weep at Night.

Verdadeiro rito de passagem pipocando aqui e ali para nos lembrar que este é um ciclo inclusivo, o violão folk de Tift retorna em duas canções tradicionais - Wayfaring Stranger e I Will Give my Love an Apple - intercaladas com um prelúdio de Bach em transcrição de Siloti. Um estranhamento que soa bem.

O ciclo caminha com coesão. Cabem nele até as surpreendentes Variações Cohen, a peça mais encorpada, composta por Daniel Felsenfeld por encomenda de Simone. São variações a partir de Suzanne, de Leonard Cohen. A faixa que dá título ao CD, Night, foi escrita por Patty Griffin para o duo Tift & Simone. O ciclo conclui para cima, com um clássico de Johnny Nash, I Can See Clearly Now.

DISCO REÚNE DESDE PEÇAS CLÁSSICAS DE PURCELL ATÉ LEONARD COHEN

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