Alquimia da vida e da ficção

Ann Beattie flagra geração da década de 80 lidando com a noção de identidade

Michiko Kakutani, O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2010 | 00h00

Em Walks With Men, Ann Beattie evoca a Nova York dos anos 80, quando moderninhos procuravam álbuns de jazz no Village e contextualizavam sua angústia citando Proust, Mallarmé e Donald Barthelme, por meio de um espelho retrovisor. Espécie de destilação das técnicas narrativas de histórias anteriores da autora, este conto intrigante e imperfeito nos fala do relacionamento entre a jovem Jane e o misterioso Neil, que promete explicar o mundo a ela e mudar sua vida.

"O acordo era o seguinte", explica ela. "Ele me contaria tudo, desde que ninguém soubesse que mantínhamos algum tipo de relacionamento." Rapidamente, o leitor percebe que Neil é um impostor pretensioso que, entre outras coisas, diz a ela que "pense a respeito do mundo como se o contemplasse a partir da perspectiva de um personagem num quadro de Hopper". Mas Jane acusa o golpe, abandona o namorado, Ben. Apesar de descobrir que Neil é casado, não desanima. Depois de se afastar por duas semanas, volta direto para ele no meio da madrugada. Casam-se. Quanto a Ben, ele encontra a religião, abre um centro de meditação e morre empurrado na direção de um trem.

No mundo de Beattie, as coisas acontecem abruptamente. Acidentes e acontecimentos aleatórios afligem seus personagens, e muitos, como Jane, demonstram estranha passividade, como se estivessem à deriva. Eles são dados à alienação e à falta de envolvimento e Jane não foge à regra, dizendo que às vezes faz uma brincadeira na qual "se imagina como Jane". "Isso nos proporciona distanciamento em relação a nós mesmos. Se uma personagem chamada Jane fizer isto ou aquilo, somos apenas uma espécie de repórter. E os acontecimentos podem ser relatados de maneiras diferentes", ela diz.

É uma ótima descrição da técnica de Ann: um registro semelhante ao de uma câmera que capta aquilo que houve com seus personagens, reluzentes trechos de suas conversas engraçadas e tristes, e a relutância em analisar e comentar. Mas, agora na meia idade, seus homens e mulheres não podem mais enxergar suas vivências como uma série de incongruências; agora são obrigados a examinar o arco mais amplo de suas vidas. E os leitores, que antes recebiam quadros instantâneos do passado dos personagens, agora recebem algo como um filme.

Em Walks With Men, Ann parece querer conferir a Jane uma espécie de olhar retrospectivo em relação à vida, usando suas excursões na terceira pessoa para iluminar ao mesmo tempo sua própria necessidade de distanciamento para compreender a vida, e a alquimia do processo de elaboração da ficção. Infelizmente, a autora não se compromete totalmente com esta perspectiva. Se Jane transmite a impressão de ser uma pessoa vagamente traumatizada, não fica claro para o leitor se ela ficou assim na tentativa de esquecer seu passado - ou na tentativa de lembrá-lo. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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