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Ignácio de Loyola Brandão
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Aloprado como um pintor de faixa da CET

Cena da vida cotidiana paulistana. Anita, uma senhora amiga, foi à rodoviária e colocou-se diante do guichê de prioridades, afinal ela tem 66 anos. À frente dela, estava um velhinho que discutia algo com o bilheteiro, um carrancudo. A conversa não acabava e o velhinho não arredava pé. Do que falam, o que tanto falam? Indagou-se minha amiga. Finalmente, o homenzinho foi despachado para outra fila. Quando Anita se aproximou do guichê, o bilheteiro colocou o cartaz: Fechado. Ela perguntou:

IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO, O Estado de S.Paulo

18 de abril de 2014 | 02h08

- Fechou agora? Não pode atender, afinal eu estava na fila, o senhor podia ter avisado.

- É hora do meu café. Fechado. Vá para outra fila.

Anita mudou de fila, mas se estava em segundo lugar, na outra nesta ficou em vigésimo. Tudo andava lento, o bilheteiro atendia, dava informações, pesquisava itinerários. E lá no guichê de onde Anita tinha sido expulsa, o bilheteiro olhava para anteontem, sem tomar café algum. Quando percebeu, o homenzinho que empacara no guichê diante dela, estava quase grudado nela e a examinava, atentamente. Um minuto antes de ser atendida, Anita sentiu o homenzinho tocando seu braço.

Pois não!

Posso saber sua idade?

- Minha idade? Para quê? Por que hei de dizer minha idade? Alguma coisa ligada a horóscopo, mapa astral?

- Não, a senhora é muito bonita, muito bem-vestida, é raro uma mulher assim por aqui. Tem quanto? Uns 47 anos?

Anita sorriu. As pessoas dizem datas redondas: 45, 55, 60. Onde ele achou 47?

Tenho 66, se isso ajuda.

Ótima idade.

Ótima para quê?

Aceite este envelope. Chegando em casa, leia, por favor.

- O que é? Pedido de dinheiro, contribuição para alguma entidade.

Leia em casa, por favor.

Anita apanhou o envelope, fez o que tinha a fazer na bilheteria. Conseguiu a passagem gratuita para terceira idade. Ou seja, velho tem sempre um lugar barato nos ônibus intermunicipais. Tem que correr, pedir com antecedência. Terminou, foi para casa e esqueceu o envelope do homenzinho. Pouco antes do jantar, lembrou-se, abriu e deu com um cartão enfeitado com uma tarja dourada. Escrito à mão, cuidadosamente:

Meu nome é Leonel tenho 60 anos e procuro mulher sozinha da mesma idade, para futuro compromisso telefone para este número se desejar a experiência teremos um período de adaptação depois nos uniremos por laços mais firmes e duradouros se não for sozinha destrua este cartão não deixe seu marido namorado noivo companheiro ver não quero encrencas. Tenho boa situação financeira duas casas de aluguel uma casa comercial Sou pipoqueiro na Parada Inglesa.

Não havia ponto, vírgula, nada. Anita sentou-se para comer, acompanhada de seu copo de vinho tinto. Meditava. Quanto pode ganhar um pipoqueiro de rua, desses que vão para a praça, à esquina, à frente do circo, do parque, dos shows? Há tanto tempo ela não via um pipoqueiro de rua. Se ele tem duas casas de aluguel, pipoca deve dar. Os pipoqueiros de porta de cinema desapareceram, depois que os próprios cinemas passaram a vender aqueles baldes de pipoca. Ou será que o homem do cartão tem um carrinho e uma concessão em cinema?

Valeria a pena experimentar? Em último caso, poderia se alimentar de pipoca? Apanhou o celular, discou. Ouviu: Fora de área, deixe mensagem. Ligou cinco vezes, fora de área. Será que o homenzinho é tão procurado assim? Colocou-se na janela e ficou vendo a CET pintando faixas no meio da rua. Era uma faixa estranha, cheia de pontas, toda irregular. Não existe régua, compasso, esquadro, transferidor na CET para fazer uma linha correta? Ou estão bêbados os pintores? Ela se lembrou de uma foto em um jornal com a faixa mais maluca já vista em trânsito. Está pintada na Rua Francisco Ranieri, no Mandaqui.

Devem ser pintores aloprados, como o Lula costuma dizer. Mais perdidos que deputados e Dilma em meio ao tiroteio da Petrobrás. Mais doidos, acuados, amedrontados que o tal André Vargas, de quem o Joaquim Barbosa está rindo agora. Rindo, não, gargalhando. Gargalhadas como aquela de escárnio dada pela Gleise Hoffman (Não confundir com a Geizi, aquela da minissaia na faculdade), quando viu que o Renan Calheiros quer CPI para tudo, menos por usar jatinho da FAB para implantar cabelo. Cadê o cabelo do Renan? Estamos todos mais doidos que o final desta crônica. Também, com essas faixas que a CET pinta...

Anita ligou para o pipoqueiro, ele atendeu. Finalmente.

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