Almoço com Ignácio

Me disse para descer a rua. Ele nem sabe, mas já vem me guiando há muito tempo

Ruth Manus, O Estado de S. Paulo

01 Abril 2018 | 02h00

Minha mãe sempre me diz que eu nasci com uma sorte danada. E a cada dia que passa me convenço mais e mais disso. Há algumas semanas escrevi sobre meu café da manhã lisboeta com meu colega, e agora amigo, Leandro Karnal. Contei sobre a minha ansiedade e sobre o quão positivamente fui surpreendida.

Pois é. A vida anda sendo realmente muito simpática comigo. Na semana passada, foi a vez de almoçar com o mestre Ignácio de Loyola Brandão, que, um belo dia, me mandou um e-mail sobre minha crônica acerca dos chuveiros europeus, levando meu coração à boca.

Eu já havia dado um abraço rápido no Ignácio no dia do lançamento do meu livro, mas, a caminho daquele almoço, sentia que eu ainda não o conhecia – o que era verdade, em parte. Mas minha ansiedade era diferente dessa vez. Escrevi que cheguei para o café com o Karnal tensa como quem vai a uma entrevista de emprego. Já com o Ignácio, eu estava ansiosa como uma criança que espera por um passeio com a escola. Não sei explicar bem o porquê.

Quando cheguei ao restaurante italiano da Vila Madalena, logo o avistei, em uma mesa à esquerda. Sorri, animada e constrangida, me desculpando profundamente pelos meus 4 minutos de atraso. Filha de juiz cresce assim. O Ignácio riu, com uma calma invejável, que eu acho que só os anos trazem.

Assim que me sentei, reparei que ele tinha uma das coisas que eu acho mais bacanas no mundo: sobrancelha bagunçada. Meu sonho era ter uma sobrancelha farta e rebelde, e não essa coisinha rala e sem graça que eu tenho acima dos olhos e que reforço diariamente com sombra marrom. Toda sobrancelha bagunçada que vejo me faz pensar que seu dono é uma pessoa muito livre, do jeito que eu queria ser.

Nem 2 minutos haviam passado e eu já queria ser mais parecida com o Ignácio do que já desejava antes. Por isso, tomada pela infantilidade que ainda reina no meu peito, comecei a perguntar, como uma inquisidora do bem: mas você (tentei tratá-lo por senhor uma única vez e quase fui extraditada para Araraquara) prefere escrever romance ou crônica? Mas você escreve onde? Na sua casa? A que horas? De manhã ou de noite? Qual seu livro do qual você mais se orgulha? Eu tentava engolir o Ignácio.

Percebi que estava me tornando inconveniente. Ele só sorria e me respondi na boa, mas venho lentamente desenvolvendo meu desconfiômetro, desde que minha irmã me disse uma vez, na casa da Tia Cecília, que eu não podia aceitar tudo o que me oferecem, nem falar tudo que eu tinha vontade, que eu precisava aprender a me comportar direito. Isso já faz mais de 20 anos, eu venho tentando aprender.

O Ignácio me sugeriu à carbonara. Fiquei feliz da vida, eu adoro carbonara. Eu pedi um suco de abacaxi com hortelã e ele pediu um guaraná normal. Normal. Eu não disse que ele era livre? Depois teve goiabada com queijo cremoso e ele fez dedicatória em todos os livros dele que eu levei. Não eram poucos. 

Eu ficava olhando para ele como as filhas de uns amigos olhavam para mim quando eu estava vestida de noiva no meu casamento. Aquele olhar encantado, de nem acreditar que nós estamos ali, e de ter a ousadia de sonhar que, um dia, podemos ser um pouquinho parecidos com aquele alvo inatingível.

Terminado o almoço, me ofereci para levá-lo ao seu compromisso seguinte. Eu perguntei o endereço, para colocar no GPS, mas ele disse “não precisa, eu vou te guiando”. Um dos maiores defeitos da minha geração é não se lembrar que as pessoas são capazes de fazer as coisas que as máquinas fazem. 

Chegamos ao endereço e foi delicioso não sermos constantemente interrompidos pela voz da moça do Waze. Ele me agradeceu e eu disse que quem agradecia era eu. Ao descer do carro, o Ignácio ainda me disse para descer a rua e virar à esquerda. Ele nem sabe, mas já vem me guiando há muito tempo.

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