Almas reveladas e ampliadas

Steve McCurry e suas viagens ao centro do ser humano ganham exposição em SP

SIMONETTA PERSICHETTI, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2011 | 03h07

São 30 anos andando pelo mundo com o único propósito de conhecer a humanidade e narrar, ou pelo menos tentar, sua história. Imagens que não se cansam de ser vistas, que nos sensibilizam pelas cores, pela delicadeza, mas com peso da fotografia jornalística. São assim as fotos de Steve McCurry, conhecido por suas reportagens na revista National Geographic e membro da agência Magnum desde 1986.

Steve McCurry esteve presente em momentos cruciais de vários países como o Afeganistão, Líbano, Camboja, Índia e Tibete. Também fotografou o atentado do 11 de Setembro. Como ele mesmo já disse em entrevistas, um dos aspectos importantes do fotojornalismo é poder mostrar o que está acontecendo.

Suas fotografias chegam agora a São Paulo por meio da mostra Steve McCurry - Alma Revelada, organizada em parceria com a Galeria Babel e que abre nesta quinta-feira no Instituto Tomie Ohtake. São cerca de cem imagens que passeiam pelos inúmeros lugares por onde McCurry passou. Inúmeras situações que ele fotografou: imagens de rituais, guerras, tradições pessoas. Geografias pessoais de um mundo que nem sempre temos a possibilidade de conhecer ou vislumbrar na imprensa diária. Cenas que procuram sair do senso comum. Isso só se torna possível porque ele não precisa necessariamente se preocupar com o factual, com a notícia em si, mas pode aliar a isso um certo mistério e incerteza que cerca a fotografia. Suas imagens não são decifráveis à primeira vista requerem um tempo de contemplação.

Mas sem dúvida falar de Steve McCurry é falar também da imagem que se tornou um dos ícones do século: a da menina afegã, Sharbat Gula, fotografada em 1984 e que foi capa da National Geographic. Uma imagem impactante conhecida no mundo e que levou o fotógrafo a tentar encontrá-la novamente. Isso só foi possível 20 anos depois. O rosto já não era o mesmo, mas os olhos não perderam a intensidade e a profundidade do verde.

Mas é claro que Steve McCurry não é fotógrafo de uma imagem só. Na exposição nos deparamos com várias de suas fotografias que narram as últimas décadas do mundo, trazendo à tona as marcas geopolíticas, as cicatrizes das guerras, a sutileza de uma prece de monges. Um destaque da mostra é a inclusão de seis fotografias feitas durante o ataque às Torres Gêmeas, em setembro de 2001, em Nova York. Imagens diferenciadas, já que acostumado a cobrir conflito em outros países, McCurry se deparou com o fato de ter que registrar um ataque ao seu próprio país. Imagens que agora ao lado das outras reforçam o olhar que ele tem sobre o mundo.

Mas uma curiosidade também se faz presente. A indústria fotográfica que dirigiu seu olhar para as inovações tecnológicas digitais acabou por tirar do mercado o filme kodackrome, na época do analógico um dos preferidos dos profissionais. Criado pela Kodak em 1935, deixou de ser fabricado em 2009. Coube a Steve fotografar o último rolo de filme e as fotos que fez são agora apresentadas nesta mostra, como uma homenagem a uma película que fez parte de sua vida nestes quase 30 anos de fotografia. Na época em que a Kodak anunciou o fim do filme em várias partes do mundo realizaram-se experiências parecidas - fotografar o último kodachrome, mas no caso de Steve, foi a própria Kodak que entregou o filme ao fotógrafo.

Ao fim da exposição o que resta é a visão de um fotógrafo que está de acordo com a tradição mais refinada do documentarismo na busca de traçar uma possível história da humanidade.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.