Alma russa

Jose Serebrier fala sobre disco em que interpreta Rachmaninoff e sobre sua turnê brasileira em abril

JOÃO LUIZ SAMPAIO, O Estado de S.Paulo

06 de março de 2012 | 03h09

Um descendente de poloneses nascido no Uruguai, formado nos Estados Unidos, fascinado pela vanguarda europeia e apaixonado pelo repertório russo. Na música, a globalização é fenômeno antigo - e o maestro José Serebrier a encarna, brinca, "sem grandes complicações". No final de abril, ele desembarca em São Paulo para abrir, com a Sinfônica Nacional Russa, a temporada da Sociedade de Cultura Artística. Antes, porém, maestro e orquestra chegam ao país em um disco recém-lançado em edição nacional, homenagem ao violoncelista Mstislav Rostropovich, com obras de autores como Rachmaninoff, Shostakovich e Glazunov, de quem acaba de lançar a gravação das sinfonias e concertos.

O álbum foi gravado há dois anos em Moscou e tem como destaque a peça Os Sinos, de Rachmaninoff, com um belo time de solistas que inclui o barítono Sergei Leiferkus. Serebrier tem uma discografia que ultrapassa a centena de álbuns - e não são poucos aqueles que o criticam pela suposta falta de critérios na escolha dos projetos em que se envolve. Conversando com o Estado, ele rechaça as críticas e defende uma relação especial com a música russa. "Já fiz de tudo um pouco, você tem razão, mas o repertório russo é aquele que mais mexe comigo, com minhas raízes, de maneira muito pessoal", diz.

Serebrier nasceu no Uruguai de pai russo e mãe polonesa. A mistura de culturas não dificultou a busca de uma identidade - que ele enxerga na música. Serebrier se diz um "homem de sorte" por ter nascido na América Latina, assim como celebra a possibilidade que teve de, logo cedo em sua vida artística, viajar para os Estados Unidos. A mudança se deu nos anos 50, quando foi estudar com Leopold Stokowski. O mestre reconhecia nele a capacidade de encontrar o equilíbrio entre os diferentes naipes da orquestra. E ele se relembra daqueles anos como um período de efervescência. "Tudo era muito fascinante. Além de trabalhar com lendas como Stokowski, eu via minhas obras como compositor sendo interpretadas e isso gerava um desejo de criar e compartilhar cada vez mais."

Stokowski fez parte de uma geração de maestros que tinha cuidado especial com a nova música, encomendando obras a jovens compositores e a nomes consagrados - outro exemplo do período é o trabalho de Sergei Koussevitsky, mentor de Leonard Bernstein. Em que medida essa característica geracional o influenciou a não abandonar a carreira de compositor e se limitar à regência? "Não estou certo. Em primeiro lugar, é preciso ter em mente que estes maestros tinham enorme dificuldade em emplacar novas obras. Stokowski foi expulso de Filadélfia justamente pela insistência em programar estreias. Eu me lembro que uma obra minha, no começo dos anos 60, foi tocada meia dúzia de vezes e isso foi suficiente para fazer de mim um dos autores novos mais tocados nos EUA. E isso porque tocaram a peça apenas seis vezes! A divulgação era algo difícil. O que me motivou a continuar escrevendo foi o impacto que a audição de obras novas provocava em mim. Eu me lembro de ouvir, ainda no Uruguai, uma peça do Edgar Varèses e pensar: uau, que linguagem nova, interessante! Imediatamente eu soube que queria compartilhar isso com as plateias, seja tocando outros autores, seja investigando novas possibilidades com as minhas obras."

Desde então, Serebrier tem se dedicado com igual empenho às facetas de autor e intérprete. Não programa, em seus concertos, criações próprias, com as quais trabalha apenas em estúdio. Suas sinfonias e concertos estão registrados por meio do trabalho de grupos como a Orquestra de Bournemouth, da Inglaterra, ou as sinfônicas de Sidney e Melbourne, na Austrália. Não são conjuntos do primeiro time, mas Serebrier não está preocupado com isso, chamando atenção à postura artística de seus diretores, abertos à nova música. Nesse sentido, celebra as novas tecnologias que, em sua opinião, dão maior espaço a jovens compositores, ainda que ele observe uma falta de ousadia que considera prejudicial na nova geração. De qualquer forma, estamos, diz ele, longe de um mundo ideal. "Precisamos lembrar que só agora, cem anos depois, autores como Bartók ou Stravinski tem entrado de maneira sistemática no repertório das grandes orquestras."

Nos concertos que fará no Brasil, Serebrier e a Sinfônica Nacional Russa terão como solista o pianista brasileiro Nelson Freire, que interpreta o Concerto n.º 20 para Piano e Orquestra de Mozart. O maestro se mostra particularmente animado, porém, com a possibilidade de tocar por aqui a Sinfonia n.º 4 de Glazunov, autor russo cuja produção em boa parte segue pouco executada - ou mesmo desconhecida. "Glazunov foi bastante popular no começo do século 20, mas de repente sua música saiu de moda. Hoje, é mais interpretada, mas há um sério problema com a maneira como a tocam. Se você interpretar sua música de olho no metrônomo, nada acontece, é tudo muito quadrado. Mahler foi contemporâneo de Glazunov e suas partituras estão repletas de indicações sobre a flexibilidade nos andamentos: 'um poco mais rápido, mas não demais' ou 'um pouco mais devagar, mas sem exagero'. Glazunov não fazia isso, então há um tentação de tocar sua música seguindo um tempo rígido que não lhe faz justiça."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.