Alma brasileira

Maria Schneider e Dawn Upshaw gravam obra inspirada em Drummond

JOÃO MARCOS COELHO , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

07 de abril de 2013 | 02h13

Em Beethoven, poema de 1973, Carlos Drummond de Andrade começa perguntando "Meu caro Luís, que vens fazer nesta hora/de antimúsica pelo mundo afora?". Reconhece, adiante, que "nós, os surdos, não captamos/o amor doado em sinfonia, a paz/em alegro enérgico sobre o caos/que nos ofertas do fundo/do teu mundo clausurado". Constata que "Nós, guerreiros nucleares, não isolamos/o núcleo da paixão de onde se espraia/pela praia infinita essa abstrata/superação do tempo e do destino". Conclui com "Boto no pick-up o teu mar de música,/nele me afogo acima das estrelas". Mas não sem antes de novo perguntar-se: "Quem comporá a Apassionata do nosso tempo?"

Aos 52 anos, a excelente compositora e arranjadora de jazz americana Maria Schneider, que desde 1993 comanda uma das raras big bands da cena atual, decidiu encarar o desafio do poeta. Acaba de lançar o CD Winter Morning Walks, para o qual compôs duas suítes extensas sobre versos de dois poetas, o americano Ted Kooser, de 74 anos, e o brasileiro Carlos Drummond de Andrade. Projeto ambicioso, que ultrapassa rótulos e/ou fronteiras em sentidos distintos, nasceu sob a forma de encomendas e traz como solista uma das maiores cantoras da atualidade, a soprano Dawn Upshaw.

A suíte que dá título ao CD foi criada a partir de nove entre os mais de 100 poemas de Kooser, escritos em Garland, Nebrasca, no outono de 1998, quando ele se recuperava de um câncer e tinha de caminhar 3 quilômetros por dia, mas sem se expor ao sol. Por isso, andava de madrugada. Os textos giram em torno da natureza. São impactantes, porque significam o renascimento diário do poeta, paralelo ao renascimento diário do sol. Encomenda do Festival Ojai e da Orquestra de Câmara Australiana, prevê uma seção de cordas, acrescida de três íntimos parceiros de Maria Schneider em sua big band: o pianista Frank Kimbrough, o contrabaixista Jay Anderson e o clarinetista Scott Robinson. Com pitadas de improvisos curtíssimos, Schneider construiu um ciclo notável, com belas melodias e perfeita adequação aos versos ora desolados, ora esperançosos, de Ted Kooser.

A encomenda de Carlos Drummond de Andrade Stories, feita e estreada em 2008 pela Orquestra de Câmara Saint-Paul, foi gravada em 2012 em Minnesota. Prevê uma orquestra muito mais encorpada. Schneider musicou quatro poemas de Drummond: Os Mortos de Sobrecasaca e Lembrança do Mundo Antigo, de Sentimento do Mundo; Não se Mate e Quadrilha, de Brejo das Almas.

No texto do encarte do CD, Schneider diz que sente "grande afinidade pelo Brasil: desde minha primeira visita ao Rio, quinze anos atrás, minhas composições têm um toque de Brasil". Não é só palavreado. É real. Schneider não busca capturar os estereótipos nem emular os ritmos exuberantes, mas a sensibilidade musical brasileira, expressa num dos momentos mais impressionantes da suíte, o Prólogo, que antecede as quatro canções. Ela aAcrescenta que "não tentei fazer música brasileira. Deixei que os poemas fizessem aflorar o ritmo e os contornos melódicos". Conseguiu. Quanta sutileza e refinamento. A melancolia de Os Mortos de Sobrecasaca; as esticadas e langorosas linhas melódicas de Lembrança do Mundo Antigo; e a contida ironia misturada com o humor tão típico de Drummond em Não se Mate. Não esperem uma Quadrilha final feérica, humorística, estereotipada; ao contrário, a voz de Dawn Upshaw "conversa" com as cordas enquanto enfileira os nomes com calma e quase solenidade. E Schneider supera-se numa escrita entusiasmante para cordas secundadas pelo piano - tudo muito brasileiro, muito modinheiro. Bom demais, música de qualidade superlativa.

Drummondianamente, dá para dizer, como o poeta faz em seu poema Beethoven, que Maria Schneider construiu uma "exaltação romântica filtrada/em sonatino adágio murmurante" nos dois ciclos, mas sobretudo no de Drummond. Pois, nestes tempos de "antimúsica pelo mundo afora", nós "não isolamos o núcleo de paixão de onde se espraia/ pela praia infinita essa abstrata/ superação do tempo e do destino". Mas precisamos tentar. Por isso é humanamente urgente "nos afogarmos" com esta música "acima das estrelas".

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