Aline pede passagem

Carioca radicada em Belo Horizonte, Aline Calixto chega mais perto dos grandes sambistas em seu segundo CD

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

18 Junho 2011 | 00h00

Voz expressiva do novo samba, Aline Calixto, carioca radicada em Belo Horizonte, dá um salto significativo em seu segundo álbum, Flor Morena (Warner), com produção do baixista Arthur Maia. No primeiro álbum, a cantora equilibrou autores novos e veteranos, mas havia mais compositores da sua geração e menos conhecidos. No segundo há maior presença de sambistas cariocas consagrados, como Martinho da Vila, Zeca Pagodinho e Arlindo Cruz (que deram canções inéditas para ela), Paulinho da Viola, Moacyr Luz, Nei Lopes, Mauro Diniz, Paulo Cesar Pinheiro, além de outros (cariocas ou não) que estão no primeiro.

Ao mesmo tempo em que vai um pouco além do samba, também parece que ela se aproxima do estilo mais tradicional. "Realmente, no primeiro CD havia mais nomes de compositores "desconhecidos" da grande mídia. Neste, acredito que a presença de nomes mais consagrados se deu pela própria aproximação e afinidade que encontrei com esses artistas", diz Aline. "Mas acima de tudo, a composição precisa estar em perfeita simbiose comigo, e isso muitas vezes independe do compositor ser mais ou menos conhecido."

No caso do baiano Peu Meurray, ela apenas tinha ouvido falar do seu trabalho percussivo com pneus. "Mas quando o conheci em Salvador, e ele me apresentou Cabila, foi paixão auditiva instantânea. Com relação ao Paulinho da Viola, é caso de amor antigo. Em especial pela música Coração Vulgar, que inclusive já a interpreto em alguns shows. Senti que era hora de materializá-la da minha maneira. E por uma feliz coincidência, no dia em que estava gravando, o Paulinho estava na sala ao lado ensaiando, daí não resisti. Convidei-o para ouvir minha versão e ele gostou muito."

Aline afirma que esse novo trabalho "tem seu pé no samba, mas respira outros ares". "Não gosto de rótulos, e também não sou tão puritana ao ponto de seguir a cartilha que diz "se não for de tal forma, não é samba". Me deu vontade de misturar samba e salsa, como fiz em Conversa Fiada (uma das duas do CD em que ela é a autora). É uma música que dialoga com as duas vertentes, mas é samba? É salsa? São as duas coisas."

De João Cavalcante, autor da mesma geração dela, e que tanto admira, Aline gravou a "cirandatu" De Partir Chegar (parceria com Jota Perpignan). "Foi ele quem bem definiu sua música, que é uma mistura de ciranda com maracatu. Não deixei de gravá-la porque não era samba. Quando ele me enviou, fiquei muito emocionada com a letra e a melodia que tão bem se desenharam em minha mente. A música que faço é universal, ultrapassa a questão de gênero. Canto o que me encanta."

Com o repertório delineado e já sabendo "por onde gostaria de andar", foi justamente por "dialogar aberto com o samba e outras vertentes" que ela escolheu Arthur Maia como produtor. "Arthur produziu um disco da Mart"nália que gosto muito. Quando Danusa Carvalho (minha empresária), que já tinha trabalhado com ele, nos apresentou foi empatia à primeira vista."

Trabalhar com ele, que "exala música por todos os poros", foi para Aline "uma das experiências mais incríveis". "Fizemos a pré-produção eu, ele e Thiago Delegado. Ficamos alguns dias enfurnados em seu estúdio em Niterói, vivenciando momentos de experimentação, criação e execução", conta. "Ele agregou elementos importantíssimos. Foi um time de músicos da pesada, desde arranjos do maestro Gilson Peranzzetta à turma que faz parte da minha banda, Robson Batata, Ricardo Acácio e Rodrigo Carioca. Curti muito trabalhar dessa forma, pois isso gera um enriquecimento profissional e humano imensuráveis."

Thiago Delegado é um dos instrumentistas que a acompanham há um bom tempo, fez arranjos para várias faixas de Flor Morena e seu violão se destaca na sonoridade de boa parte do disco. Aline já disse que prioriza no seu trabalho a rica escola harmônica mineira e Delegado tem "totalmente" a ver com isso.

Novos mineiros. Aline - que além do Rio, tem uma forte ligação com a Bahia, onde gravou três faixas do novo álbum que "pediam" a percussão e as harmonias de lá - é um dos nomes mais ascendentes da nova geração mineira que faz samba, indo além da herança musical de João Bosco e Clara Nunes, entre outros. "Em Belo Horizonte mais especificamente, tem uma galera nova que não só interpreta como também compõe. Acho isso muito importante pois são novos ares que dão frescor a esse gênero musical", diz a cantora e compositora.

"Tenho muito orgulho de fazer parte dessa nova cena que vai muito além do samba. Tem o Flávio Renegado que vai do rap ao samba, a Orquestra Cabaré, Gustavo Maguá, compositor do samba-rock, Lucas Avelar, Pedro Morais, Senta a Pua, Thiago Delegado, que movimenta a cena instrumental. Vixe, o negócio tá é bom pro nosso lado."

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